
Evento promovido pela Unimed trouxe especialistas renomados para falar sobre diagnóstico, acolhimento e os desafios da inclusão
A noite fria da última terça-feira (27) em Ibirubá foi aquecida por um dos debates mais relevantes da atualidade: o autismo e sua relação com uma sociedade em constante transformação. Com a Casa de Cultura completamente lotada, a palestra “O Autismo no conceito do espectro: uma sociedade em transformação” reuniu pais, profissionais da saúde e educação, estudantes e interessados em aprender mais sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA).
O evento foi promovido pela Unimed Alto Jacuí, e teve como palestrantes o Dr. Renato Santos Coelho, doutor em Pediatria e mestre em Ciências da Saúde, e o Dr. José Paulo Ferreira, mestre em Saúde Coletiva e atual presidente da Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul (SPRS). A dupla emocionou o público com um conteúdo profundo, acessível e carregado de sensibilidade.
“Mais do que uma palestra, viemos para conversar com a comunidade de Ibirubá. A ideia é abrir espaço para trocas reais, com base científica e experiência prática, mas também com escuta”, destacou Dr. José Paulo logo no início da fala.
Ele, que atua há quase 15 anos em um ambulatório de desenvolvimento infantil em Porto Alegre, trouxe dados que chamaram a atenção: “Nos anos 2000, tínhamos um caso de autismo para cada 200 crianças. Hoje, esse número chega a um em cada 31, segundo estudos norte-americanos. Isso não significa que surgiram mais autistas, mas que o conceito de espectro se ampliou, e com ele, nossa compreensão também precisa crescer.”
Já o Dr. Renato Coelho, com 30 anos de atuação na área do neurodesenvolvimento, destacou a importância de conhecer o desenvolvimento típico infantil como ponto de partida para reconhecer os sinais de alerta. “Não existe exame de sangue que detecte o autismo. É um diagnóstico clínico, observacional, que exige paciência e conhecimento”, reforçou.
Um dos momentos mais impactantes da noite foi a abordagem sobre o papel da família no processo de diagnóstico e intervenção. “Receber o diagnóstico não é uma sentença. É um ponto de partida. E ninguém caminha sozinho. A família é parte essencial do cuidado. Sem ela, nenhum tratamento se sustenta”, afirmou Coelho.
A palestra também abordou os perigos da desinformação, que se alastra com força nas redes sociais. “Infelizmente, vemos muitos profissionais não qualificados se apresentando como especialistas. É fundamental que os pais busquem ajuda de pessoas com formação reconhecida. Saúde não é lugar para achismos”, alertou Dr. José Paulo.
Outro ponto que gerou forte identificação foi a crítica à ideia de tratamentos padronizados. “Não existe receita de bolo. Cada criança é única, cada família tem sua realidade. O que funciona para um, pode não funcionar para outro. É preciso respeitar essa singularidade”, ressaltaram os palestrantes em uníssono.
Além das falas técnicas, os especialistas demonstraram empatia ao abordar as angústias dos pais diante do desconhecido. “A inclusão começa com o entendimento. O autismo não é bom ou ruim, não é certo ou errado. É diferente. E a sociedade precisa estar pronta para acolher essa diferença”, concluiu Ferreira.
A Unimed Alto Jacuí, organizadora do encontro, considerou o evento um sucesso e reforçou o compromisso com ações de promoção à saúde e educação continuada. “Eventos como esse mostram o quanto é necessário promover informação de qualidade e criar espaços de escuta. Vamos continuar investindo nisso”, destacou a equipe da cooperativa médica.