
Mesmo distante, Schotkis afirma manter vínculo com a cidade. A visita, segundo ele, reforça a ligação construída ao longo da vida e a percepção de que Ibirubá, apesar das mudanças, preserva parte de sua identidade.´
O tempo parece desacelerar quando Alfredo Schotkis para na esquina das ruas Flores da Cunha e General Osório. Aos 87 anos, o ex-professor e bioquímico, filh de uma das primeiras famílias judias de Ibirubá, retorna revisitando não apenas lugares, mas capítulos inteiros da história da cidade. O prédio onde hoje funciona a Loja Colombo e a LaFemme já foi cinema, salão de bailes e residência da família Schotkis. Mais tarde, tornou-se sede da tradicional Casa Marcos, referência no comércio local. A ausência de colunas no prédio, explica, não é acaso: “Era para não atrapalhar a visão do cinema”. Foi dali também que ele acompanhou a emancipação do município. “Quando veio a confirmação, soltamos foguetes onde hoje é o Clube Comercial”, recorda.
Entre as lembranças mais marcantes está um episódio que movimentou Ibirubá em dezembro de 1967. Um estrangeiro, que se apresentava médico que serviu ao regime nazista, hospedou-se por dois dias no Hotel Central e despertou suspeitas. Rumores diziam se tratar de Martin Bormann, integrante do alto escalão do regime de Adolf Hitler, em fuga para a Argentina. Segundo ele, o homem procurava morfina. “Isso levantou uma história que não tinha fundamento. Diziam que o Bormann estaria aqui, o que nunca foi verdade”, afirma Schotkis. O caso atraiu jornalistas de várias partes do país. “Virou quase um quartel-general de imprensa na minha casa”, lembra. Era Hans Sonnenburg, que procurou o Padre Chico para pedir ajuda, pois não aguentava mais fugir dos caçadores de nazistas.
Professor no Ginásio General Osorio e fundador do Laboratório Bioquímico (hoje pertencente a Dácio Moraes), Schotkis acompanhou de perto as transformações de Ibirubá ao longo das décadas. Ruas de chão batido deram lugar ao asfalto, bairros surgiram onde antes havia apenas serrarias e salões, e o município passou a crescer verticalmente. Ele também relembra a época em que a cidade servia como parada para famílias migrantes que seguiam ao oeste gaúcho e catarinense. “Eles dormiam aqui e continuavam viagem”, conta. Mesmo vivendo em Porto Alegre, afirma não ter perdido a ligação com a terra natal. “A gente acompanha de longe, torce. Ibirubá faz parte da nossa vida.”





















