
O encontro reuniu representantes da concessionária, do Legislativo e do Executivo municipal, em um debate marcado por cobranças, explicações técnicas e encaminhamentos para fiscalização.
O principal foco das manifestações esteve nas faturas elevadas registradas após mudanças no sistema de leitura, implantadas em fevereiro deste ano. Durante a audiência, foram citados casos de consumidores que receberam contas entre R$ 1 mil e R$ 4 mil, situação que mobilizou reclamações e pedidos de revisão.
Representando a Corsan Aegea, o gerente de relações institucionais Filipe Trindade reconheceu em entrevista para a nossa reportagem os problemas no processo e atribuiu a situação a um “descompasso” causado pela reorganização das rotas de leitura. Segundo ele, em alguns casos as medições ocorreram fora do prazo padrão e, em outros, por média de consumo.
“Esse processo gerou distorções em algumas faturas, mas estamos tratando cada situação individualmente e com flexibilidade para buscar solução ao consumidor”, afirmou Trindade.
Ele sustentou que a situação já estaria normalizada e que os canais de atendimento estão orientados para analisar os casos pontualmente.
Outro ponto de forte repercussão foi a redução do atendimento presencial no município, hoje concentrado em três dias por semana — segundas, quartas e sextas-feiras. A medida gerou críticas de vereadores e moradores, especialmente pela dificuldade enfrentada por idosos para acessar serviços digitais.
O presidente da Câmara, Cristiano André da Silva, o Pinheiro (MDB), reforçou a preocupação com esse público. “Pessoas de idade são simples, não sabem lidar com esses links. Elas querem olhar no olho da pessoa e entender o que devem e quais são seus direitos”, declarou. Em outro momento, Pinheiro reforçou a cobrança política por presença física da concessionária: “Não estamos discutindo luxo, estamos falando de atendimento básico. O cidadão precisa ser ouvido presencialmente e não empurrado apenas para aplicativo ou telefone”, afirmou.
A Corsan argumentou que o modelo digital segue uma tendência de modernização dos serviços, mas admitiu necessidade de aprimorar a acessibilidade das plataformas para o público sênior. Conforme Trindade, a empresa trabalha para tornar o sistema mais intuitivo e ampliar o suporte aos usuários.
Além das reclamações, a audiência também abordou a fiscalização do contrato de concessão e os mecanismos para cobrança do cumprimento das metas. O secretário municipal de Administração e Planejamento, Everton Lagemann, detalhou o papel do município e dos órgãos reguladores na mediação das demandas dos consumidores.
R$ 1 MILHÃO/MÊS DE FATURAMENTO
Em levantamento paralelo da reportagem, com base em documentos e dados do setor, o contrato com a Aegea prevê mais de R$ 58 milhões em investimentos em Ibirubá até 2033, por força do Marco do Saneamento, com foco em expansão da rede e tratamento de esgoto.
Em um dado apurado pela reportagem, com base no Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), Ibirubá registra perdas de 36,23% na distribuição de água — ou seja, mais de um terço da água tratada se perde antes de chegar à torneira do consumidor.
Também apurado pela reportagem, desde a privatização, em julho de 2023, até abril de 2026, foram investidos cerca de R$ 2,4 milhões no município — sendo R$ 1,85 milhão em água, R$ 522 mil em esgoto e pouco mais de R$ 31 mil em outras melhorias. O valor representa cerca de 4% da meta contratual prevista. Nossa apuração também aponta arrecadação mensal superior a R$ 1 milhão
PROCON NA MEDIAÇÃO DAS RECLAMAÇÕES
Everton Lagemann destacou que a prefeitura mantém fiscalização sobre o cumprimento contratual e que o Procon tem atuado nas demandas dos consumidores. Das 22 reclamações registradas recentemente, 20 tiveram solução encaminhada.
“O consumidor precisa formalizar a reclamação. Sem processo aberto na agência reguladora, não há como aplicar penalidades ou cobrar medidas previstas em contrato”, alertou o secretário, ao mencionar que apenas seis processos haviam sido protocolados na AGESAN em 2026. Lagemann também ressaltou: “Existe contrato, existem metas e mecanismos de punição, mas eles só se tornam efetivos com registro formal das ocorrências”. Em outro trecho, acrescentou: “Não basta reclamar informalmente; precisamos transformar a indignação da comunidade em processos que permitam cobrar providências concretas”.
Vereadores também defenderam maior divulgação dos canais para denúncias e revisão de cobranças.
Como encaminhamento, a Câmara deverá elaborar um relatório da audiência para remeter aos órgãos competentes, incluindo AGESAN, Ministério Público e direção da concessionária.























