09 de Março, 2026 14h03mMês da Mulher por Jardel Schemmer- Repórter Rádio Cidade 104.9

A mulher que desafiou o improvável e abriu caminho na solda em Ibirubá

De pioneira no chão de fábrica a líder industrial, de instrutora de jovens a vendedora ativa após a aposentadoria

Após perder o emprego no comércio, Eliane Mohr decidiu recomeçar em um ambiente dominado por homens e acabou se tornando uma das primeiras soldadoras de Ibirubá.

A história profissional de Eliane Mohr é marcada por decisões que exigiram coragem. Durante muitos anos, seu cotidiano esteve ligado ao comércio. Na década de 1990, trabalhou no Magazine Cotribá, uma das lojas mais movimentadas de Ibirubá na época.
“Foram cerca de dez anos trabalhando lá. Era uma loja fantástica, com uma clientela muito grande. Muita gente da região vinha comprar aqui, e a gente criou uma relação muito forte com os clientes”, relembra.
O encerramento das atividades do comércio, no entanto, obrigou muitos trabalhadores a buscar novos caminhos. Para Eliane, aquele momento representou uma virada importante.
“Quando o Magazine fechou, muita gente ficou meio perdida. Eu também fiquei pensando no que poderia fazer. Eu precisava encontrar um novo foco, um novo caminho profissional”, conta.
Foi então que ela descobriu os cursos oferecidos pelo Sindicato dos Metalúrgicos. O primeiro passo foi a interpretação de desenho técnico, uma formação considerada essencial para quem pretende ingressar na indústria.
“Ali eu comecei a entender como funcionava o setor metal mecânico. Depois fui conhecendo outros cursos e alguém comentou comigo sobre o curso de solda. Eu resolvi fazer.”
Na época, a presença feminina nas fábricas ainda era rara. Mesmo assim, ela decidiu seguir em frente.
“A gente sempre tinha aquela impressão de que fábrica era coisa para homem. Mas eu pensei que precisava tentar. Peguei a apostila, comecei a estudar, fui pesquisando e me interessando cada vez mais pelo assunto.”
Em 2005 surgiu a primeira oportunidade em uma empresa do setor. Ao chegar ao chão de fábrica, percebeu que o desafio seria ainda maior do que imaginava.

“Eu entrei no setor de solda e era a única mulher ali. Era tudo muito novo para mim. Eu tinha feito o curso, mas dentro da empresa é diferente, você precisa aprender na prática, entender o ritmo da produção.”

O início não foi fácil. Houve momentos de insegurança e dúvidas sobre a escolha profissional.
“Muitas vezes eu chegava em casa e pensava: ‘O que eu estou fazendo aqui?’ Eu chorei várias vezes. Você está num ambiente totalmente masculino, lidando com algo que nunca fez antes. Mas ao mesmo tempo eu sabia que precisava continuar.”
Depois de um período inicial na indústria, uma crise no setor levou a empresa a realizar demissões e ela acabou sendo desligada. A situação poderia ter representado o fim daquela tentativa, mas Eliane decidiu insistir.
“Na época eu até entendi a situação. Tinha muitos pais de família que precisavam mais daquele emprego. Eu era nova na empresa. Então eu voltei a estudar, voltei a fazer cursos e continuei tentando.”
A nova oportunidade apareceu em 2007, quando foi contratada pela Indutar, empresa que começava a se estruturar no parque industrial de Ibirubá.
“Quando eu entrei lá dentro, não tinha essa modernidade que existe hoje. Era tudo muito no começo. Muitas peças eram feitas praticamente na trena, montando gabaritos para conseguir produzir.”
O crescimento da empresa foi acompanhado pelo desenvolvimento profissional de Eliane. Ela participou de treinamentos internos, buscou qualificação e passou a compreender cada vez mais o processo produtivo.
“Eu sempre tive muita curiosidade de entender o que eu estava fazendo. Não era só soldar uma peça. Eu queria saber como funcionava o equipamento, como aquele processo acontecia e qual era o resultado final.”
Esse interesse também abriu espaço para que ela participasse da formação de novos trabalhadores. Dentro do Projeto Pescar, iniciativa voltada à capacitação de jovens, Eliane passou a atuar como instrutora de solda.
“Quando me convidaram para ajudar a dar o curso, eu fiquei pensando: ‘Como eu vou ensinar solda?’ Aí eu lembrei do primeiro curso que eu fiz, daquele livro que eu ganhei na época. Peguei aquele material e comecei a montar uma apostila com o básico do básico para os alunos.”
A experiência marcou sua trajetória. Alguns jovens formados por ela seguiram carreira na indústria e hoje ocupam posições importantes dentro de empresas da região.
“Isso é algo que me deixa muito feliz. Você vê uma pessoa que passou por você lá no começo e que hoje está crescendo dentro da profissão.”
Com o tempo, Eliane também passou a exercer funções de liderança dentro da empresa, coordenando equipes no setor de solda.
“Quando alguém entrava para trabalhar comigo, eu sempre dizia que ali era uma fábrica de oportunidades. A pessoa podia começar num setor e depois descobrir outras áreas dentro da empresa. O importante era aprender e buscar crescimento.”
Em 2021 veio a aposentadoria por tempo de serviço. No mesmo período, ela enfrentou complicações causadas pela Covid-19, o que acabou levando ao encerramento do ciclo dentro da indústria.
Mesmo assim, ficar em casa não foi uma adaptação fácil.
“Eu me preparei para sair da empresa, mas não me preparei para ficar parada. No começo parece férias, mas depois você sente falta do movimento, das pessoas, do dia a dia de trabalho.”
Depois de alguns meses, decidiu voltar ao mercado. Desde 2024 atua na Mekal, trabalhando com vendas internas e externas.
“Eu gosto de conversar com as pessoas, gosto de aprender coisas novas. O trabalho sempre fez parte da minha vida.”
Ao relembrar a própria trajetória, Eliane destaca que a persistência foi essencial para chegar até aqui.
“Nada é impossível. A gente precisa estudar, se qualificar e acreditar que pode aprender coisas novas. Foi assim que eu construí minha história.”
E, sem perceber, ao entrar em um setor onde quase não havia mulheres, ela ajudou a abrir caminhos para muitas outras.

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