
Estancieira construiu um dos maiores patrimônios rurais da região e deixou lembranças de liderança forte, influência política e gestos de solidariedade
Em meio às vastas paisagens do interior gaúcho, onde o campo molda histórias e o tempo parece caminhar no ritmo das estâncias, poucas figuras femininas exerceram tamanha influência quanto Honorina Mariense de Campos, conhecida como Cassinha de Abreu. Ela nasceu em 1896, em Santa Maria, e no ano de 1921 casou-se com Carlos Gomes de Abreu, natural de Pelotas. Da união nasceu o único filho, Carlos Mariense de Abreu, que deu continuidade ao legado familiar ao casar-se com Ambrosina Pinto de Moraes Abreu. Dessa geração vieram os netos Vera Abreu, Carlos Gomes de Abreu e Angélica Abreu. Dona de uma personalidade firme, de fala definitiva e postura imponente, Cassinha ela transformou a própria presença em símbolo de autoridade em uma época marcada pelo predomínio masculino nos grandes negócios rurais.
Mais do que administrar propriedades, Dona Cassinha consolidou um legado construído sobre disciplina, estratégia e liderança. Após a morte do marido em 1936, assumiu os negócios da família e ampliou um patrimônio que se espalhava por Cruz Alta, Tupanciretã e região de fronteira, tornando-se referência na pecuária, especialmente na criação de gado charolês premiado.
Ao mesmo tempo em que despertava respeito — e até temor — por sua maneira rigorosa de conduzir decisões, também era lembrada por atitudes silenciosas de generosidade com famílias carentes e entidades da comunidade. Uma dualidade que permanece viva nas lembranças de quem conviveu de perto com a estancieira.
Entre essas memórias está a do ex-motorista João Caponi, que durante dez anos acompanhou a rotina da empresária rural. Segundo João, Dona Cassinha exercia o comando absoluto das propriedades mesmo sem frequentar diariamente o campo.
“Era uma mulher decidida. O que ela dizia era uma bala de 38, não tinha conversa fiada com ela”, relembra.
As decisões partiam da residência e eram repassadas aos funcionários por meio de pessoas de confiança.
“Ela não ia para campo nenhum, nem pras mangueiras. Só uma vez ela foi quando comprou uns touros de Minas. Ela me dava as ordens para transmitir pro capataz”, conta.
O tamanho das propriedades impressionava. Conforme o ex-motorista, o grupo possuía grandes extensões de terra distribuídas entre as estâncias São Carlos, do Pilão e da Vigia, além de uma chácara em Tupanciretã.
“A fazenda São Carlos tinha 50 quadras de campo. A estância do Pilão tinha 38 e a da Vigia mais 50”, detalha.
Na pecuária, Dona Cassinha se destacou pelo investimento na genética do rebanho charolês, levando animais para exposições e concursos agropecuários em Porto Alegre. O reconhecimento veio também em forma de premiações.
“Teve dois touros dela premiados. Um deles era o Ibirubá. Era um exemplo de touro, coisa linda”, recorda João.
A influência da estancieira também se estendia aos círculos políticos e sociais da época. Reservada, mantinha cuidado sobre quem tinha acesso à sua presença.
“Naquelas voltas de 64 teve general que vinha de Cruz Alta querendo falar com ela. Falavam comigo no portão e eu ia perguntar. Muitas vezes ela mandava dizer que não atendia”, afirma.
Apesar da postura austera, João faz questão de destacar o lado humano da patroa. Segundo ele, Dona Cassinha frequentemente ajudava famílias em situação de vulnerabilidade.
“Ela gostava muito daqui. Carneava vacas e distribuía carne para os mais pobres”, lembra.
A morte de Dona Cassinha, em 1982, em Cruz Alta, encerrou um capítulo importante da história rural da região, mas não apagou a memória de quem testemunhou sua trajetória.
“Foi como perder uma mãe”, resume João Caponi.
Há quem recorde da Veraneio verde metálica, dos óculos de sol grandes, dos colares e do estilo inconfundível. Sua propriedade serviu de cenário para o longa-metragem “Os Aba Largas”, que retrata o início das ações da Brigada Militar no combate ao abigeato na fronteira, conectando sua história a um contexto cultural mais amplo do Estado.
Décadas depois, as lembranças permanecem atravessando gerações e ajudam a preservar a imagem de uma mulher que transformou firmeza em liderança e deixou sua marca definitiva na história do interior gaúcho.























