
A trajetória da Comunidade Quilombola de Capão dos Lopes, em Fortaleza dos Valos, ganhou projeção acadêmica e regional com a premiação da tese do servidor do IFRS Campus Ibirubá Maurício Lopes de Lima, reconhecida como a melhor do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo.
A pesquisa reconstrói memórias ligadas à ancestralidade negra, ao território e aos processos de apagamento histórico da presença afro-brasileira no Alto Jacuí. Descendente da própria comunidade pesquisada, Maurício adotou a autoetnografia como método e destacou que a experiência pessoal fortaleceu a investigação. “Eu não tento me ausentar do trabalho. Me coloco dentro dele enquanto sujeito que faz parte dessa história”, afirmou.
Segundo o pesquisador, a tese ajuda a questionar versões históricas que atribuem a formação regional apenas à colonização europeia. “Esses documentos provam que a escravidão era massiva nessa região e que os resquícios disso permanecem vivos nas comunidades quilombolas”, disse.
Um dos eixos do estudo é a reconstrução da origem do Capão dos Lopes a partir de documentos do século XIX e da memória oral preservada por familiares. Entre os personagens centrais está Antônio, ancestral do pesquisador, que teria recebido carta de liberdade condicionada e uma área de terras que deu origem à comunidade. “Ele não ganhou exatamente essa terra. Houve uma relação de negociação, marcada pelo trabalho e pela lógica escravista”, explicou.
A pesquisa também utiliza narrativas familiares como fonte histórica. Maurício destacou a importância de memórias preservadas por parentes mais velhos para localizar documentos e remontar a genealogia da comunidade. “Quando morre uma pessoa assim, morre um patrimônio, morre um documento”, observou.
Além da dimensão histórica, a tese dialoga com debates contemporâneos sobre reparação e reconhecimento territorial. O trabalho já é referência em estudos antropológicos ligados ao processo de titulação quilombola em andamento na região. “A memória é importante, mas a gente também quer reparação efetiva. Queremos que esses processos avancem”, afirmou.
Outro aspecto abordado é o apagamento das práticas religiosas de matriz africana. Embora a comunidade tenha sido fortemente marcada pelo catolicismo popular, o pesquisador identificou memórias sobre terreiros e práticas ancestrais. “Essas presenças existiam e foram sendo apagadas historicamente”, pontuou.
Para a jornalista e servidora do IFRS Júlia, o estudo ajuda a ampliar a compreensão sobre as origens regionais. “A história da nossa região não começa apenas com a imigração europeia. Há outras presenças que foram invisibilizadas e precisam ser reconhecidas”, ressaltou.
Maurício defende agora que a pesquisa ultrapasse os espaços acadêmicos e chegue às escolas e comunidades. Entre as possibilidades está a publicação da tese em livro e ações de extensão. “A gente precisa partilhar o conhecimento e ocupar todos os espaços possíveis com esse debate”, disse.





















