
Professora e escritora Cristiele Kuhn Terhorst fala sobre sua trajetória, literatura e o resgate da história indígena e afrodescendente no RS
A literatura como instrumento de transformação social e resgate da memória. Essa é a bandeira defendida por Cristiele Kuhn Terhorst, professora, escritora e integrante da Academia Ibirubense de Letras. Em entrevista, ela compartilhou sua trajetória de vida, marcada por um olhar sensível sobre a diversidade cultural e um compromisso firme com a educação e a história local.
Natural de Selbach, criada na zona rural, Cristiele iniciou sua caminhada como normalista em Tapera e seguiu sua formação em Pedagogia pela UPF, em Passo Fundo.
“Sempre quis ser professora. Minha mãe, já falecida, foi a minha inspiração. Via nela uma alegria imensa ao corrigir provas e cadernos”, contou.
Em 2003, fixou residência em Ibirubá, onde constituiu família e continuou sua atuação na educação, hoje como vice-diretora e orientadora no Instituto Estadual Edmundo Roewer. "Fui muito bem acolhida em Ibirubá. Aqui é onde construímos nossa vida", diz.
A carreira literária de Cristiele tem raízes no seu envolvimento com o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG). Prenda mirim, juvenil e adulta do CTG Estância do Imigrante, ela usou sua experiência no meio tradicionalista para propor reflexões e resgatar histórias que muitas vezes são silenciadas.
Seu primeiro livro solo nasceu de sua pós-graduação em Educação, Diversidade e Cultura Indígena. A obra “O Movimento Tradicionalista Gaúcho e seu olhar sobre os povos indígenas do Rio Grande do Sul” evidencia as lacunas existentes nas bibliografias oficiais utilizadas por prendas nos concursos. "Em 2011, percebi que os materiais de estudo pouco ou nada mencionavam os povos indígenas. É necessário atualizar essas fontes com obras reconhecidas pela academia, que valorizem a presença e a cultura indígena viva", explicou.
Cristiele participou ainda de diversas coletâneas, como “Histórias de Educação”, “Vozes de Educação” e “Educação Básica, Educação e Sociedade – Temas Emergentes”, sempre abordando a educação indígena e a importância de respeitar e valorizar sua cultura desde a infância. “Podemos trabalhar essa temática com crianças pequenas sem estereótipos, valorizando elementos como o artesanato, as línguas e os modos de vida dos povos indígenas.”
A professora também publicou sua dissertação de mestrado como livro, intitulada “O sotaque alemão no regionalismo riograndense – história e práticas”, que analisa como comunidades germânicas passaram a adotar elementos do tradicionalismo gaúcho, especialmente em Selbach. “Foi uma simbiose cultural. Uma comunidade formada por imigrantes alemães, católicos e rurais, que passou a se identificar com a cultura gaúcha a partir da criação do CTG. Isso mostra como a identidade se constrói por camadas”, apontou.
Durante a entrevista, a escritora destacou a falta de registros históricos sobre os povos indígenas e afrodescendentes na região de Ibirubá e municípios vizinhos. “A história parece começar na colonização europeia. Antes disso, há um silêncio preocupante. Precisamos resgatar essa memória, que também é nossa”, disse, citando o professor Mário Maestri e o livro de Lauro Waldir Müller como referências importantes.
Cristiele defende que o preconceito atual contra indígenas é fruto de desconhecimento.
“Quando vemos indígenas vendendo artesanato nas ruas, muitos os olham com desprezo. Mas, para eles, isso é uma forma de interação com outra cultura e também de sobrevivência. A escola tem papel fundamental em mudar essa mentalidade, cultivando o respeito desde cedo.”
Para ela, o caminho é claro:
“Educação é a ponte entre culturas. Precisamos ensinar com empatia, com afeto, com verdade. A diversidade é a nossa maior riqueza.”





















