
Com origem humilde, Neverton superou obstáculos sociais e financeiros para se tornar médico. Hoje, atua em emergências no litoral do RS e mantém vínculo com Ibirubá, cidade onde nasceu, cresceu e iniciou sua formação na área da saúde.
“Minha infância foi simples, como a da maioria das crianças do bairro. Mas foi ali, entre brincadeiras na rua e apoio da família, que aprendi o valor da persistência”, relembra. A inspiração veio de casa: seu pai Pedro Chaves, popular Laçasso,e sua mãe, dona Otília, que trabalhava no hospital Annes Dias, o incentivaram a ingressar no curso técnico de enfermagem aos 16 anos. “A mãe me inscreveu sem eu saber. Confiou em mim antes mesmo de eu entender a importância daquele passo.”
O técnico de enfermagem foi cursado ainda durante o ensino médio. Entre aulas, estágios e turnos de trabalho, Neverton acumulava conhecimento e experiência. Em seguida, trabalhou em farmácia e em hospitais da região, especialmente em Ijuí, onde atuou por anos em áreas como emergência e centro cirúrgico.
Mais tarde, ingressou no Exército Brasileiro como sargento da saúde, permanecendo por sete anos. “Foi um período em que pude me manter financeiramente e seguir estudando. A rotina era intensa, mas essencial para minha formação.”
Apesar de já atuar como enfermeiro, o sonho de cursar medicina permanecia. As tentativas em vestibulares no Brasil esbarravam na alta concorrência e nos custos. Foi então que, com apoio da esposa — também enfermeira —, decidiu iniciar o curso na Argentina. “Viajávamos mais de 1.200 km quinzenalmente. Foi cansativo, mas necessário. Fizemos muitos sacrifícios.”
A graduação ocorreu na Fundación Héctor Barceló, em Santo Tomé, na fronteira com o Rio Grande do Sul. O modelo de ensino, exigente e prático, surpreendeu. “Lá, aprendemos colocando a mão no paciente. Provas orais e avaliações rigorosas. Não há espaço para improviso.”
Ao concluir o curso em 2023, enfrentou o Revalida — exame nacional obrigatório para validar diplomas de medicina obtidos no exterior. Aprovado, iniciou imediatamente a atuação como médico em unidades de pronto-atendimento e hospitais em Rio Grande e região. Também retornou a Ibirubá, onde presta plantões mensais.
“A medicina exige preparo técnico, mas também sensibilidade. Ainda encontro resistência por ter estudado fora do país, mas o atendimento de qualidade vence qualquer preconceito”, afirma.
Atualmente, divide a rotina entre a UPA do Cassino, a Santa Casa do Rio Grande e unidades particulares. Soma mais de 70 horas de trabalho por semana, conciliando com a vida familiar — é pai de dois filhos — e com os estudos. Está aprovado para residência em Pediatria e projeta subespecializar-se em terapia intensiva pediátrica no futuro.
“O atendimento a crianças me conquistou no internato. Senti que ali estava algo que fazia sentido pra mim”, comenta. Além disso, possui formações complementares em cardiologia, medicina de emergência adulto e neonatal.
Para Neverton, o estudo foi o único caminho possível para transformar sua realidade. “Sempre tive medo de errar por não ter estudado o suficiente. Na saúde, a margem para erro é mínima. Por isso sigo buscando mais.”
Mesmo com conquistas sólidas, não esquece de onde veio. “Eu nunca saí de Ibirubá de verdade. Atender aqui, reencontrar colegas e familiares, me lembra por que escolhi essa profissão.”
Com firmeza, conclui: “Não importa onde você começa. O que importa é até onde você está disposto a ir. E o estudo é a ponte para chegar lá.”























