
No Dia do Técnico em Enfermagem, a enfermeira Vanessa Hentges relembrou a própria caminhada profissional e destacou a força humana de uma categoria essencial nos bastidores e na linha de frente da saúde
Enquanto muitos enxergam apenas o atendimento final, há uma engrenagem silenciosa que mantém a saúde funcionando dia e noite. No Hospital da Comunidade Annes Dias, em Ibirubá, essa realidade passa pelas mãos da enfermeira Vanessa Hentges, que conhece a profissão em todas as suas etapas: começou como técnica em enfermagem, enfrentou jornadas exaustivas de estudo e trabalho e hoje lidera a equipe assistencial da instituição.
Com 16 anos de hospital, Vanessa construiu sua trajetória longe de atalhos. Antes da saúde, trabalhou como babá e no comércio. Foi ao ingressar no curso técnico em enfermagem que encontrou seu propósito. “Gostei, me identifiquei e consegui uma oportunidade aqui no hospital. Depois pensei: posso ir além”, contou.
Esse “ir além” significou cinco anos de uma rotina intensa. Trabalhava durante o dia, estudava à noite em Cruz Alta e, muitas vezes, dedicava fins de semana a plantões ou atividades acadêmicas. “Foram sete dias por semana durante muito tempo. Era cansativo, mas era meu sonho.”
Hoje, como supervisora de enfermagem, coordena 36 técnicos e seis enfermeiros. Mas a experiência prática continua moldando sua visão sobre a profissão. Para ela, a técnica não basta sem sensibilidade. “Quem está no hospital está fragilizado. Sempre digo à equipe: atendam como gostariam que um familiar de vocês fosse atendido.”
Ao longo da carreira, Vanessa viu de tudo: acidentes graves, situações de tensão, nascimentos emocionantes e momentos que deixam marcas permanentes. Entre todos, nenhum capítulo foi tão desafiador quanto a pandemia.
“Foi um divisor de águas. A gente não sabia exatamente com o que estava lidando. Colegas adoeciam, plantões dobravam, o desgaste era físico e psicológico. Mas ninguém abandonou o barco.”
Segundo ela, foi nesse período que ficou ainda mais evidente quem realmente abraçou a profissão como missão. “O pessoal que ficou, que resistiu, que vestiu a camisa, merece todo reconhecimento.”
Vanessa também chama atenção para outro desafio pouco discutido fora dos corredores hospitalares: a saúde mental dos profissionais. Pressão emocional, agressões verbais de pacientes em momentos de tensão e a carga psicológica de lidar diariamente com sofrimento humano fazem parte da rotina.
“Às vezes, as pessoas estão nervosas e descarregam na equipe. Faz parte do momento, mas somos humanos também.”
Outro alerta vem da dificuldade de renovação da categoria. Embora no passado o curso técnico fosse altamente procurado, hoje há menos interessados na área, o que preocupa instituições de saúde.
Apesar dos desafios, Vanessa não demonstra arrependimento. Pelo contrário. Fala com orgulho de uma profissão que exige preparo, coragem e humanidade. “A gente estudou para isso. E, independentemente do que vier, vamos continuar aprendendo e cuidando.”
Profissionais que cuidam da vida merecem reconhecimento além dos hospitais
Muito antes de um diagnóstico médico ou de uma decisão clínica, quase sempre existe uma equipe de enfermagem acolhendo, avaliando, orientando e agindo. Essa foi a principal reflexão trazida pelo diretor do Hospital da Comunidade Annes Dias, Odair Funck, ao falar sobre a importância dos profissionais que sustentam diariamente a rede de saúde.
Segundo ele, o reconhecimento precisa ultrapassar os limites dos hospitais e alcançar todos os que atuam no cuidado direto à população.
“Quando a gente se depara com uma emergência, a primeira abordagem ao paciente é feita pela equipe de enfermagem. Muitas vezes, a própria iniciativa desses profissionais, sem a presença imediata do médico, é de vital importância para salvar vidas”, destacou.
Odair lembrou que esse trabalho também está presente nas unidades básicas de saúde, campanhas de vacinação, monitoramento epidemiológico, ambulâncias, serviços de remoção e até nas equipes de resgate.
Ao abordar a rotina da categoria, o gestor foi enfático ao afirmar que a enfermagem exige entrega que vai além da técnica. “É um pessoal que trabalha muito por vocação, e não por remuneração. O que enfrentam no dia a dia, muitas vezes, as pessoas não fazem ideia.”
Plantões intensos, pressão emocional, desgaste físico e a convivência constante com momentos delicados fazem parte da realidade desses profissionais, que mesmo diante das dificuldades seguem exercendo um papel indispensável no funcionamento da saúde.
“Merecem nossos calorosos aplausos”, resumiu Odair, ao reconhecer uma categoria que, muitas vezes longe dos holofotes, continua sendo essencial para manter vidas em segurança.























