
Aos 65 anos, morador do bairro Floresta transforma caminhadas, chimarrão e simplicidade em vídeos que conquistam Ibirubá nas redes sociais
Ademar Spies não planejou virar personagem das redes. Também não ensaiou bordão, não montou cenário, nem comprou equipamento. O “vovô do TikTok”, como passou a ser chamado em Ibirubá, nasceu quase sem querer: no passo curto de uma caminhada, no mate de cada manhã e na frase que grudou no povo — “hoje pode”.
Natural da região de Passo Fundo, Ademar chegou a Ibirubá ainda jovem, aos 14 anos. Desde então, construiu uma vida marcada pelo trabalho. Foi servente, pedreiro, construtor e acompanhou de perto a realidade de muitas famílias tentando levantar a primeira casa. “A gente trabalhou sempre com essa vida”, resume. Morador há cerca de 50 anos no bairro Floresta, ele fala com orgulho do lugar onde criou raízes. “Ali é a nossa vida. Lugar tranquilo, graças a Deus.”
A internet entrou depois, quando a aposentadoria já tinha chegado e a saúde pediu movimento. Após problemas de saúde, ouviu da médica que precisava caminhar. No começo, estranhou. “Fazia mais de 40 anos que eu não caminhava. Só pensava em trabalhar e andar de carro”, conta. O que era recomendação virou rotina. E a rotina virou conteúdo.
Foi numa dessas caminhadas que surgiu o bordão. “Eu escrevi caminhada, bom para a saúde, e botei: hoje pode. Sabe que pegou aquilo ali?”, lembra. Desde então, Ademar passou a registrar o cotidiano: a rua, o chimarrão, a cultura gaúcha, os encontros, as pequenas cenas que muita gente vê, mas poucos param para valorizar.
A fórmula, segundo ele, é não ter fórmula. “Se tu planejar, tu não grava. Tem que ser espontâneo. Não adianta tu querer te enfeitar. Tu tem que ser simples, que nem todo mundo é.” Talvez esteja aí o segredo: Ademar não tenta parecer influenciador. Ele apenas aparece como é.
Com mais de 6 mil seguidores no TikTok, vídeos que passam de 90 mil visualizações e presença em outras plataformas, ele já atrai olhares de empresas locais. Mas o retorno maior, diz, não é financeiro. “Não precisa ser só dinheiro. Às vezes o retorno é a amizade, é estar bem, a cabeça ativa, o corpo em movimento.”
Nas ruas, recebe pedidos de fotos e vídeos. Também aprendeu a ter cuidado com a internet, principalmente com imagens de crianças e perfis falsos. Ainda assim, segue firme.
Porque para Ademar, caminhar, gravar e encontrar gente virou mais que passatempo. Virou remédio, alegria e presença. E hoje pode.





















