
Nesta edição, a reportagem esteve na Linha 8, no interior de Ibirubá, para conhecer uma casa centenária construída em estilo enxaimel, técnica trazida por imigrantes europeus e que marcou as primeiras edificações do interior gaúcho. A residência pertence à senhora Lisete Schneider Schmidt e foi erguida por volta do ano 1900, permanecendo como testemunho vivo da história da colonização na região.
A parte mais antiga da casa foi construída pelos bisavós maternos de Lisete, os imigrantes alemães Herman Holdefer e Catarina Holdefer, utilizando madeira e tijolos de barro, com divisórias internas também em madeira, características típicas do sistema enxaimel. Herman faleceu em 1922 e está sepultado no Cemitério Católico de Ibirubá. O casal teve três filhos, entre eles João Holdefer, avô materno de Lisete, que se casou com Catarina Kreutz Holdefer. Os avós tiveram três filhas. Apesar da simplicidade, a estrutura permanece sólida após mais de um século.
Na década de 1950, a residência passou por ampliações realizadas pelo pai de Lisete, Edgar Pedro Schneider, em função do crescimento da família formada com sua esposa, Cecília Holdefer Schneider. Casados em 1944, o casal teve 11 filhos: Afonso, Amélia (in memoriam), Arcênio, Basílio, João, Lisete, Lúcia, Marta, Paulo, Pedro e Zeno. A antiga cozinha externa foi desmanchada e a área dos quartos ampliada, mantendo-se, porém, o núcleo original da casa.
“Antigamente era só uma casinha, basicamente os quartos. Com o tempo, a família foi aumentando e a casa também precisou crescer”, relembra Lisete.
Um imóvel que atravessa gerações
Atualmente, Lisete Schneider Schmidt, viúva de Írio Schmidt, segue residindo na casa centenária, onde criou seus dois filhos, Marcelo Alencar Schmidt e Matheus Schmidt, dando continuidade à história iniciada por seus bisavós no início do século passado.
A casa está situada em uma propriedade de 24 hectares, pertencente à família desde a época do bisavô Herman Holdefer, sendo transmitida de geração em geração. No local, a atividade rural sempre esteve presente, com criação de gado e suínos, além do cultivo de soja e outras culturas agrícolas.
A propriedade também se destaca pela riqueza natural. Há açude, grande quantidade de araucárias e árvores nativas, e o local é cortado pelo Rio Manjolo, que, segundo Lisete, nunca secou, nem mesmo em períodos de estiagens severas, sendo uma referência histórica e ambiental da região.
A casa é rodeada por gramado verdejante, jardins com flores cultivadas pela própria Lisete e um amplo arvoredo, que cria um ambiente de tranquilidade, onde se ouve o canto de diferentes espécies de pássaros ao longo do dia, reforçando a integração entre o imóvel histórico e a natureza preservada.
Atenta à preservação e ao potencial histórico e paisagístico do local, Lisete pretende pintar o imóvel nas cores originais, com o corpo da casa em branco e as aberturas em marrom, respeitando a estética tradicional do enxaimel. A ideia é explorar o imóvel e a natureza ao redor para a realização de books fotográficos, valorizando o patrimônio histórico aliado à paisagem rural.
No interior da residência, Lisete também se dedica à preservação de móveis e utensílios antigos, muitos deles seculares. Entre os itens estão bibelôs, vasos de barro, mesa, cristaleira, armário, penteadeira, pipas de vinho, quadros com fotografias antigas, entre outros objetos que ajudam a contar a trajetória da família e do próprio imóvel ao longo das gerações.
Além do acervo doméstico, Lisete e seus filhos preservam diversas ferramentas agrícolas antigas, verdadeiras peças de museu, que testemunham o modo de produção das primeiras décadas da colonização. Entre elas estão plantadeiras manuais, conhecidas como matracas, e cangas de boi, utilizadas quando o trabalho no campo era feito exclusivamente com a força animal.
Além de agricultor, Herman Holdefer deixou um legado importante para a comunidade. Foi ele quem doou terras para a comunidade local, onde hoje se encontra o cemitério católico, local em que está sepultado.
Lisete nasceu em 1967, ano em que a energia elétrica chegou à Linha 8, marco que transformou a rotina das famílias do interior. Antes disso, o trabalho no campo era feito com arado e boi, realidade vivida por seus pais e avós.
“Depois que veio o trator, tudo começou a mudar. O meu pai ficou muito conhecido na região de Ibirubá e Selbach pelo trabalho com corte de lenha”, recorda.
Histórias de coragem e perseverança
Entre os relatos preservados pela família, chama atenção uma mudança realizada por parentes na década de 1930, quando viajaram cerca de 250 quilômetros até Itapiranga, em Santa Catarina. A jornada durou nove dias e meio e foi feita com carroça, vacas e cavalos.
Sem estradas ou transporte coletivo, o grupo se orientava por bússola e pontos cardeais, caminhando durante o dia e acampando à noite, geralmente em períodos de lua cheia, para garantir segurança aos animais.
“Hoje é difícil imaginar algo assim. Eles eram verdadeiros guerreiros”, afirma Lisete.
Um legado preservado
Mesmo com as transformações trazidas pela modernidade, como internet, ar-condicionado e maquinário agrícola, Lisete faz questão de preservar a casa centenária e manter viva a memória da família.
Ela relembra, com carinho, a força da mãe, que recusou deixar a propriedade quando o marido cogitou se mudar para Santa Catarina.
“Minha mãe dizia: pode ir, mas eu fico aqui. Acho que herdei um pouco dessa força dela”, conta.
Hoje, parentes que moram em outras cidades e estados fazem questão de visitar a casa sempre que retornam à região.
“As casas antigas têm vida. Elas guardam histórias, sentimentos e lembranças”, resume.
Mais do que uma construção, a casa centenária em estilo enxaimel da Linha 8 é um patrimônio histórico, cultural e afetivo, símbolo da resistência dos pioneiros e da identidade do interior de Ibirubá.























