Ibirubá, 25 de Setembro de 2026

De Selbach ao Norte do país: a trajetória de Luis Henrique, o goleiro que transformou persistência em títulos

Formado nas categorias de base da região, arqueiro construiu caminho por clubes do Rio Grande do Sul, Roraima e Amazonas, conquistou títulos, disputou a Copa do Brasil e encontrou no futebol do Norte uma oportunidade para consolidar a carreira

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Cristiano Lopes- Jornalista

De Selbach ao Norte do país: a trajetória de Luis Henrique, o goleiro que transformou persistência em títulos

Entre abandonar o sonho e tornar-se campeão, às vezes existe apenas uma oportunidade. Para o goleiro Luis Henrique, natural de Selbach, ela apareceu justamente quando a possibilidade de seguir no futebol profissional parecia cada vez mais distante. Depois de passar pelas categorias de base de diferentes clubes, enfrentar dispensas, voltar para casa e retomar os estudos, ele decidiu tentar mais uma vez. A escolha o levou ao outro extremo do Brasil e abriu um novo capítulo de uma trajetória que hoje reúne títulos, atuações decisivas e experiências em competições nacionais.

Em entrevista ao Cidade News, da Rádio Cidade FM de Ibirubá, Luis Henrique contou o caminho percorrido desde os primeiros contatos com a bola em Selbach até a consolidação no futebol do Norte. Aos 22 anos e com 1,90 metro de altura, ele encerrou a temporada de 2026 como campeão da segunda divisão do Campeonato Amazonense pelo Fast Clube, de Manaus. Antes disso, já havia conquistado a competição por outra equipe e construído uma sequência que incluiu Campeonato Roraimense, Copa Verde, Série D do Campeonato Brasileiro e Copa do Brasil.

A relação com o esporte começou dentro de casa. Filho de Andrezão, conhecido no futebol regional, Luis Henrique cresceu acompanhando o pai nos campos. Começou no futsal em Selbach, por volta dos sete ou oito anos. Inicialmente tentou jogar na linha, até perceber que seu caminho poderia estar embaixo das traves.

“Meu pai sempre esteve dentro de um campo de futebol e eu cresci vendo ele jogar”, recordou. Depois de alguns anos como goleiro, a família percebeu que era necessário buscar uma estrutura que possibilitasse uma evolução maior.

Foi então que, aos 12 anos, Luis Henrique chegou a Ibirubá para integrar as categorias de base da AIF/ZIF. A experiência representou uma das primeiras grandes mudanças de sua formação. Além dos treinamentos específicos, passou a disputar competições estaduais, viajar e enfrentar equipes de outras regiões do Rio Grande do Sul.

A passagem por Ibirubá seria determinante para aquilo que viria depois.

“Foi muito importante porque pude sair de Selbach, em primeiro lugar, e ver que o mundo não era só aquele entorno regional ou aquela escolinha. Joguei o Estadual com a ZIF. Você começa a viajar, vai até Uruguaiana, dez horas para jogar uma partida, e começa a perceber que realmente gosta daquilo”, contou.

Aos 14 anos, o primeiro grande salto

Depois de aproximadamente dois anos em Ibirubá, surgiu uma oportunidade que mudaria novamente sua rotina. Aos 14 anos, Luis Henrique conseguiu realizar uma avaliação na Chapecoense.

Foi aprovado e permaneceu alguns meses no clube catarinense. Não chegou a disputar competições oficiais, mas treinou diariamente em uma estrutura de futebol profissional. Era 2018, período em que a Chapecoense ainda vivia uma realidade de destaque no cenário nacional.

Para um adolescente que até pouco tempo antes treinava na região, estar naquele ambiente teve um significado especial.

“Foi quando vi que era isso que queria para minha vida. Estar todos os dias ali dentro, treinando diariamente. Não queria fazer outra coisa”, afirmou.

A experiência também trouxe uma das primeiras dificuldades características da profissão: a distância da família. Aos 14 anos, era a primeira vez que permanecia longe de casa. Mesmo assim, voltou ao Rio Grande do Sul convencido de que tentaria construir uma carreira no futebol.

Após retornar, treinou na Academia de Futebol do Careca, em Espumoso. A partir de um contato feito naquele período, conseguiu uma oportunidade no Lajeadense. Aos 16 anos, mudou-se para Lajeado e passou a disputar competições de base, incluindo o Estadual Sub-17 e torneios regionais.

Ficou aproximadamente dois anos no clube. Quando encerrou o ciclo no Sub-17, precisou novamente procurar espaço. O destino seguinte foi o Passo Fundo, onde integrou a categoria Sub-20 e disputou o Gauchão da categoria.

A carreira, porém, estava prestes a enfrentar seu momento mais delicado.

A dispensa que quase encerrou o sonho

No início de 2023, uma mudança de direção e de comissão técnica no Passo Fundo provocou uma reformulação no elenco. Grande parte dos jogadores foi dispensada. Luis Henrique estava entre eles.

Aos 19 anos, voltou para Selbach.

Sem clube e sabendo das dificuldades de encontrar espaço depois da saída das categorias de base, chegou a considerar encerrada sua tentativa de viver profissionalmente do futebol.

“Praticamente desisti. Com 19 anos é muito difícil encontrar alguma coisa. Entre aspas, desisti do futebol profissional, de viver disso”, relatou.

Luis Henrique começou a estudar no Instituto Federal e retornou ao futsal. Defendeu o São Lourenço no Sub-20 e suas atuações chamaram a atenção do Guarany de Espumoso, que o levou para o elenco adulto.

Parecia que sua trajetória tomaria definitivamente outro rumo.

Até que, no fim de 2023, surgiu um telefonema.

A proposta era para atravessar o Brasil e jogar em Boa Vista, Roraima. O contrato inicial seria curto: aproximadamente quatro meses. Se desse certo, poderia continuar. Caso contrário, voltaria para casa.

Era preciso decidir antes do Natal.

Luis Henrique conversou com o pai e resolveu arriscar.

“Pensei: quatro meses a mais. Já tentei até agora, vamos tentar novamente.”

Aquela decisão mudaria sua carreira.

O recomeço a milhares de quilômetros de casa

Em 2024, Luis Henrique chegou ao futebol de Roraima. No primeiro Campeonato Roraimense profissional, permaneceu a maior parte da competição como reserva e estreou somente na última partida.

Depois disputou o Estadual Sub-20, conquistou o título da categoria e ganhou a oportunidade de participar da Copa São Paulo de Futebol Júnior. Em 2025, voltou ao profissional e integrou a campanha que terminou com o vice-campeonato estadual. Mais uma vez, entretanto, teve poucas oportunidades como titular.

A virada veio no Amazonas.

Na metade de 2025, transferiu-se para disputar a segunda divisão amazonense. Finalmente recebeu uma sequência como titular. Jogou toda a competição e terminou campeão.

Foi também quando começou a chamar atenção pelas defesas de pênaltis.

Na semifinal, defendeu duas cobranças. Na decisão, repetiu a dose: outros dois pênaltis defendidos.

Quatro defesas em momentos decisivos.

“Ali foi quando tive um destaque bom. Até então eu tinha só dois jogos como profissional. Quando consegui fazer aqueles jogos bem e me destacar, as coisas começaram a melhorar. Foi um ponto-chave”, explicou.

Aquele jovem que dois anos antes havia voltado para Selbach pensando em desistir agora tinha um título profissional e começava a construir seu nome no futebol do Norte.

“Renovou tudo de novo. Agora a ideia é viver disso até quando não der mais, até o corpo dizer chega.”

Copa do Brasil e jogos diante de grandes clubes

O desempenho abriu caminho para uma nova temporada no Monte Roraima. Em 2026, Luis Henrique voltou ao clube para um calendário consideravelmente maior.

A equipe tinha pela frente Campeonato Roraimense, Copa do Brasil, Copa Verde e Série D do Campeonato Brasileiro.

Luis Henrique começou como titular no Estadual. O time chegou à semifinal, sendo eliminado nos pênaltis. Depois, o goleiro teve a oportunidade de disputar a Copa do Brasil.

O adversário foi o Gama, no Estádio Bezerrão, em Brasília.

Entrar em campo diante de aproximadamente 10 mil torcedores tornou-se uma das experiências mais marcantes de sua carreira.

“Você chega ali, olha dez mil pessoas no estádio e pensa: que experiência incrível. Nunca imaginei passar por isso, principalmente lembrando de 2023, quando de certa forma tinha desistido de tudo”, contou.

Na Copa Verde, também esteve envolvido em confrontos contra equipes como Remo, Amazonas e Águia de Marabá.

Nem tudo, porém, foi sequência como titular. Após uma mudança na comissão técnica, perdeu a posição para um goleiro mais experiente. O companheiro André Júnior entrou justamente diante do Remo, no Pará, teve grande atuação e defendeu um pênalti.

Luis Henrique permaneceu no banco durante boa parte da Série D.

A situação revelou outra dimensão da profissão. Apesar da disputa pela mesma posição, ele conta que manteve o apoio ao companheiro.

“Eu estava buscando meu espaço e tentando voltar, mas apoiando ele. Estava no banco, mas torcendo muito por ele.”

Segundo Luis Henrique, essa relação é fundamental entre os goleiros. A posição exige preparação específica, com trabalho que normalmente começa antes dos demais atletas e termina depois do restante do elenco.

“O goleiro é o primeiro que entra no campo e o último que sai. Se um jogador quiser ficar depois do treino batendo bola, vai ter um goleiro ali trabalhando com ele. É pesado. Mas quando os quatro goleiros estão unidos, disputando a posição sem serem inimigos, isso ajuda muito.”

Mais um título em 2026

Encerrada a participação do Monte Roraima na Série D, Luis Henrique recebeu nova oportunidade no Amazonas. O treinador que havia trabalhado com ele anteriormente o levou para o Fast Clube, tradicional equipe de Manaus.

Dessa vez, voltou a assumir a titularidade.

Foram nove partidas em uma campanha invicta, segundo o goleiro, com apenas dois ou três empates e vitórias nos demais confrontos.

O resultado foi mais um título da segunda divisão amazonense e o acesso do Fast à elite estadual.

Para Luis Henrique, significou também a confirmação de que a decisão tomada no fim de 2023 havia valido a pena. O jovem que viajou para Roraima sem saber se permaneceria quatro meses conseguiu estabelecer-se no futebol do Norte e passou a ser conhecido no mercado daquela região.

Ele explica que a visibilidade funciona de maneira diferente daquela encontrada nos principais centros do país.

“O futebol no Norte é visto pelos locais. Jogando em Roraima, você abre portas em Manaus. Jogando em Manaus, abre portas em Belém ou novamente em Roraima. É difícil vir para o Sul, principalmente por conta própria”, explicou.

Atualmente, conta com o auxílio de Bruno Nascimento, representante no Rio Grande do Sul, na tentativa de encontrar oportunidades também no futebol gaúcho. Luis Henrique, entretanto, não condiciona a continuidade da carreira a um retorno.

“Se não der para vir para cá, como as coisas estão andando lá, não tem problema continuar no Norte.”

De Selbach para uma carreira profissional

A distância também transformou o jovem que, aos 14 anos, sentia a primeira experiência longe da família. Hoje, deslocamentos de centenas de quilômetros, aeroportos, hotéis, apartamentos e alojamentos fazem parte da rotina.

Entre Boa Vista e Manaus, por exemplo, são cerca de 12 horas de ônibus ou pouco mais de uma hora de avião. Para retornar ao Rio Grande do Sul, o transporte aéreo tornou-se praticamente obrigatório.

Fora dos períodos de competição, a preparação continua.

Após retornar ao Estado, Luis Henrique reserva alguns dias para descanso e depois retoma os trabalhos físicos e os treinamentos específicos para goleiro. O objetivo é permanecer preparado para quando surgir a próxima oportunidade.

Com 1,90 metro de altura e sem histórico de lesões graves, sabe também que joga em uma posição na qual a carreira costuma ser mais longa. Ao mesmo tempo, isso torna a concorrência especialmente difícil: goleiros experientes permanecem em atividade por muitos anos, reduzindo os espaços disponíveis aos mais jovens.

Aos 22, ele entende que ainda existe um caminho longo pela frente.

“É onde tudo começa”

Mesmo depois de percorrer milhares de quilômetros e conhecer diferentes estruturas do futebol brasileiro, Luis Henrique não esquece onde sua trajetória começou.

Durante a entrevista, fez questão de destacar a importância dos projetos de formação existentes em municípios como Selbach e Ibirubá.

Para ele, nem toda criança que frequenta uma escolinha precisa necessariamente tornar-se atleta profissional. A importância está também na possibilidade de descobrir aptidões, aprender a conviver em grupo e perceber até onde o esporte pode levá-la.

“Se você tem oportunidade de colocar seu filho no futebol, coloque. Se aos 15 anos ele sair da escolinha e não der em nada, tudo bem, vai estudar. Mas deixa o menino jogar para ver se vai dar certo. Não tem como saber nessa idade.”

E acrescentou:

“Esses projetos e escolinhas são muito importantes porque é onde começa tudo. É dali que você vê se vai gostar, se vai querer aquilo para sua vida.”

No caso de Luis Henrique, deu certo.

Do menino que começou no futsal em Selbach e acabou no gol quase por acaso surgiu um atleta que passou pela base de Ibirubá, Chapecoense, Lajeadense e Passo Fundo; que voltou para casa pensando que o futebol profissional havia terminado; que atravessou o Brasil para tentar mais quatro meses; e que encontrou no Norte uma nova oportunidade.

Agora, com a temporada encerrada, permanece no Rio Grande do Sul treinando e aguardando o próximo telefonema.

A expectativa é definir o destino para 2027 próximo do início das pré-temporadas, entre o fim de novembro e o começo de dezembro. Depois de tudo o que viveu, Luis Henrique sabe que estar preparado quando a oportunidade aparecer pode representar a diferença entre voltar para casa e abrir uma nova porta.

Ao final da entrevista, resumiu em poucas palavras aquilo que aprendeu desde que saiu de Selbach.

“Uma é ir atrás dos seus sonhos, não importa se é longe ou perto. E outra é acreditar em Deus. Quanto mais evoluo, mais vejo a mão dele nisso. Se você tem Deus e tem um sonho, acredito que não existe motivo para não conseguir. Deus vai dar a oportunidade. Se você estiver preparado no momento certo, vai conseguir.”

Para Luis Henrique, a próxima defesa começa justamente aí: continuar preparado enquanto espera o próximo desafio.

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