
Morador de Ibirubá enfrenta a perda quase total da visão com autonomia, alegria e um sorriso que já emocionou o Brasil inteiro
Aos 64 anos, Gustavo Kogler convive com uma das doenças genéticas mais raras do mundo: a coroideremia, que destrói progressivamente a retina. Morador de Ibirubá, ele se aposentou por deficiência visual ainda em 1993, quando os médicos lhe recomendaram parar de ler para preservar o pouco que ainda enxergava. “Disseram: ‘Gustavo, para de judiar os olhos’. E eu parei. Mas foi aí que perdi 75% da visão em pouco tempo.”
A história começou na infância. “Com 5 anos já sentia dificuldade para enxergar no escuro. Aos 10, não conseguia ver o quadro negro na escola. Aos 25, fiz cirurgia para miopia, achando que ia resolver. Mas não resolveu nada.” Depois de consultas em Passo Fundo, os exames mais profundos vieram em Campinas, São Paulo. “Lá descobri que não era diabetes nem atrofia simples. Era uma doença genética grave. E o mais triste: sem cura.”
Mesmo assim, Gustavo nunca se entregou. Vive sozinho. Cuida da casa. Faz comida. “Na minha casa sou eu que lavo, cozinho, limpo. Com ajuda, sim, mas faço tudo o que posso.” No dia a dia, conta com o apoio da irmã, da vizinha, da namorada e de amigos, mas sua autonomia impressiona. “Se preciso sair, pego o telefone e sempre tem alguém que vem. Às vezes nem preciso pedir, o povo já oferece ajuda.”
Ao falar da família, revela que a doença atinge outros parentes. “É passada da mãe para o filho. As mulheres não manifestam, mas transmitem. Tenho irmão, sobrinho e um neto da minha irmã com os mesmos sintomas. E eu fui o primeiro a saber.”
Apesar da condição, Gustavo segue sendo presença marcante nas festas e bailes da região. “Teve um mês que fui em 17 bailes. Um deles, dancei com 14 mulheres! Tinha até ficha para dançar comigo. Era quase como fila do INSS”, brinca, rindo alto. “Eu danço com o pé no chão, sabe? Sempre digo que quem dança comigo não sai pisado. Ou quase não.”
Ficou conhecido como o “sorriso” da campanha publicitária da Odontotop. “Eu sorria e todo mundo reconhecia. Nem precisava dizer meu nome. Era só dar aquele sorriso e o povo dizia: ‘É o Gustavo do vídeo!’”. E o bom humor é mesmo uma marca. “Alexa, o que eu faço pra ser feliz?”, pergunta à assistente virtual, que responde com dicas motivacionais. “Ela fala bonito, né? Mas eu acho que ser feliz é agradecer por cada coisa. Até o cachorro-quente da festa eu saboreio como se fosse banquete.”
Mesmo diante da escuridão quase total, Gustavo não reclama. “Hoje enxergo 1%, mas a claridade ainda me atrapalha. Só que quando olho pro lado e vejo crianças com deficiência mental e física... aí eu penso: eu não tenho do que me queixar.”
Ao lembrar de um coral em que participou, se emociona. “Eu era tímido, morria de medo de palco. Mas um dia, a Raquel Novello me chamou no meio da praça e disse: ‘Vem te apresentar como deficiente’. E eu fui. Ali perdi a vergonha. Hoje canto até com os músicos no palco. Muitas vezes sei a letra melhor que eles.”
A lucidez e a fé no futuro seguem intactas. “Hoje já tem mais de 100 casos da minha doença no Brasil. Quem sabe um dia vire prioridade para os cientistas. Talvez em dois, três anos apareça uma oportunidade de tratamento. Se eu tiver que ser cobaia, topo na hora.”
No fim da conversa, Gustavo se levanta para atender a porta. “Aqui em casa, tudo tá no lugar. Pode entrar, tá tudo limpinho. Eu sou chato com isso. Minha sobrinha vem almoçar aqui, e quem lava a louça sou eu mesmo.” Antes de ir, ainda brinca com a Alexa, joga o “Show do Milhão” e se diverte com as perguntas. “O cérebro tem que seguir funcionando. Porque quando a gente para de pensar em coisa boa, só vem tristeza. E aí não dá.”
Na simplicidade do seu lar, entre risadas, histórias e memórias, Gustavo ensina: mesmo quando a visão vai embora, a alegria, o amor e o sorriso podem continuar iluminando tudo ao redor.
A vida de Gustavo também é marcada por conexões humanas profundas. Seja com a vizinha que o ajuda com carinho, com a irmã que lhe acompanha nos almoços ou com a namorada que não divide o mesmo teto, mas compartilha presença e afeto constantes.
Mesmo com a rotina desafiadora, ele segue enfrentando o dia com bom humor e disciplina. “Meu fogão tá sempre limpo, minhas roupas organizadas. E se precisar, eu mesmo faço minha comida. Tenho orgulho da minha casa. Não mudei nada pra visita, porque minha vida é assim: simples e certinha.”
Gustavo sabe que sua história já tocou muita gente, e isso o motiva. “As pessoas me dizem que se inspiram em mim. Isso é bonito de ouvir. Eu não faço nada demais, só não deixo a tristeza me dominar. Quem tem fé e gratidão, mesmo no escuro, sempre encontra um jeito de ver a beleza da vida.”





















