
Psicopedagoga Jaqueline Dorfey alerta para prejuízos neurológicos e comportamentais do uso excessivo de tecnologia entre crianças
Brincar, correr, esperar, frustrar-se, explorar o mundo real. Essas são experiências fundamentais na infância que, cada vez mais, têm sido substituídas pelo brilho hipnótico das telas. Em entrevista à Rádio Cidade, a psicopedagoga Jaqueline Camera de Mello Dorfey, da Clínica Integrar, referência em atendimento infantil em Ibirubá e região, fez um alerta contundente sobre os impactos do uso excessivo de telas no desenvolvimento físico, cognitivo e emocional das crianças. "A gente fala de um tema que é infantil, mas a responsabilidade é do adulto", disse Jaqueline logo no início da conversa. A profissional destacou que o uso precoce e exagerado de celulares, tablets e televisores afeta diretamente a linguagem, o comportamento, o sono e até o desenvolvimento motor das crianças. “Quanto mais dopamina o cérebro recebe com aquele conteúdo que o agrada, mais difícil será desconectar. A criança entra num estado de vício, como acontece com substâncias químicas”, explicou.
Um dos pontos mais preocupantes é o impacto neurológico. Estudos recentes, citados pela especialista, mostram que crianças de até 3 anos expostas a mais de uma hora de tela por dia apresentam atrasos no desenvolvimento da linguagem, problemas de atenção e dificuldades emocionais. "Mesmo que a criança tenha um QI alto, se ela não tiver controle emocional, será um adulto disfuncional", alertou.Além disso, Jaqueline citou estudos que mostram que a exposição ao sol e a prática de atividades ao ar livre reduzem significativamente problemas como a miopia. “Crianças que brincam ao ar livre de 10 a 14 horas por semana reduzem em até 60% o risco de desenvolver miopia, mesmo com predisposição genética”, contou. Durante a conversa, pais participaram compartilhando experiências. Um pai relatou a diferença de comportamento entre seus filhos gêmeos: um mais passivo, que assiste longamente a desenhos, e outro mais agitado, que pula de vídeo em vídeo. “Ambos estão recebendo estímulos que dificultam a autorregulação”, afirmou a psicopedagoga. Ela também chamou atenção para o papel do exemplo familiar. “Os filhos nos observam o tempo todo. Não adianta pedir que larguem os celulares se os adultos não fazem o mesmo. Criança precisa de conexão real, de presença. Tempo de qualidade com os filhos não precisa ser longo, mas precisa ser inteiro.”
Sinais de alerta
Entre os sinais de que a criança pode estar sofrendo os efeitos negativos das telas estão a irritabilidade, agressividade, birras constantes ao desligar os dispositivos, atraso na fala, dificuldades de socialização e até problemas para se alimentar. “Tem criança que só come na frente da TV e não sabe nem o que está comendo. Isso é preocupante”, disse Jaqueline.
Ela ressalta que a transição deve ser gradual. “Não se tira as telas de forma abrupta. Usamos a técnica das aproximações sucessivas: diminuir cinco minutos por dia, fazer combinados, usar alarme para marcar o tempo. O ideal é que até os três anos a criança tenha, no máximo, 30 minutos de tela por dia — e mesmo assim, com supervisão e conteúdo adequado”, orientou.
Tecnologia como aliada — com moderação
A especialista reconhece que a tecnologia faz parte da realidade atual e pode ser útil, desde que bem dosada. "O problema está na livre demanda, quando a criança acessa o que quer, quando quer. O uso deve ser planejado, com horários e objetivos definidos", recomendou. Ela também indica o uso de aplicativos como o Family Link, que ajudam os pais a controlar o tempo de tela e os conteúdos acessados.
Por fim, Jaqueline defendeu o resgate de práticas como a leitura em família e o convívio presencial. “Ler 30 minutos por dia com a criança fortalece a memória de trabalho e as funções executivas do cérebro. A tela pode esperar, mas o desenvolvimento não.”