Ibirubá, 28 de Setembro de 2026

De Ibirubá à Alemanha: a trajetória de Neiva entre ciência, desafios e a construção de uma nova vida

Química ibirubense vive há quase dez anos em Munique, atua na área de certificação ligada ao hidrogênio e retorna à terra natal com o marido Florian Loser e o filho Henry, de cinco meses

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Cristiano Lopes- Jornalista

De Ibirubá à Alemanha: a trajetória de Neiva entre ciência, desafios e a construção de uma nova vida

Quase dez anos separam a partida de Ibirubá da vida que Neiva construiu na Alemanha. Nesse intervalo, houve uma nova língua, empregos, negativas, adaptação cultural, crescimento profissional, viagens, casamento e, recentemente, a maternidade. De volta à terra natal para visitar a família, ela participou de uma entrevista na Rádio Cidade acompanhada do marido, o alemão Florian Loser, e do pequeno Henry, de apenas cinco meses. Mais do que uma história sobre morar no exterior, a conversa revelou uma trajetória construída a partir de escolhas, planejamento e disposição para começar novamente.

Neiva nasceu no interior de Ibirubá, onde sua família vive na localidade de Arroio Grande. A trajetória acadêmica começou a levá-la para cada vez mais longe de casa. Depois dos estudos no município, seguiu para Passo Fundo, onde cursou Química. Na sequência, fez mestrado em Porto Alegre e iniciou doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Foi nesse percurso que a Alemanha entrou definitivamente em seus planos.

A ligação com a Química começou ainda na escola. Neiva recorda a influência de uma professora, Susana, responsável por despertar nela o interesse pela área. A formação científica acabaria se tornando uma das bases da carreira que desenvolveu anos depois na Europa, mesmo que sua atividade atual não seja exatamente a de uma química de laboratório.

A mudança para a Alemanha ocorreu na virada de 2016 para 2017. E, ao recordar aquele momento, Neiva resume de maneira bastante direta como surgiu a oportunidade de morar no exterior: ela não apareceu pronta.

“Ela nunca surgiu, eu criei”, afirmou durante a entrevista.

Antes da mudança definitiva, Neiva havia conhecido a Alemanha como visitante e percebeu que gostaria de tentar construir ali uma nova etapa da vida. O projeto, entretanto, exigiu aproximadamente dois anos de preparação. Aos 30 anos, deixou para trás uma realidade conhecida para iniciar praticamente do zero em outro país.

Uma das primeiras prioridades foi o idioma. Embora a cultura germânica esteja fortemente presente em Ibirubá e em diversas comunidades do Rio Grande do Sul, ela explica que os dialetos preservados pelas famílias descendentes de imigrantes são diferentes do alemão oficial utilizado no cotidiano profissional e institucional do país.

Durante os primeiros sete meses, a dedicação foi praticamente exclusiva ao aprendizado da língua. A estratégia era alcançar o nível necessário para avançar nos processos de permanência e, posteriormente, ingressar no mercado de trabalho. Vieram também os “nãos”, as dificuldades financeiras naturais de quem está começando e um primeiro emprego pequeno e temporário. Depois, a carreira ganhou estabilidade. Atualmente, Neiva está há cerca de oito anos na mesma empresa.

Hoje, sua atuação profissional está relacionada à certificação na área de hidrogênio. Na entrevista, ela explicou o trabalho a partir de uma comparação mais próxima da realidade brasileira: a certificação funciona, em determinados aspectos, como os selos que comprovam padrões de qualidade e segurança. A segurança, segundo ela, é um dos pontos centrais do processo.

Além de equipamentos, processos e normas, a empresa também trabalha com certificação de pessoas e qualificações profissionais. A formação em Química segue sendo importante para compreender tecnicamente o setor de hidrogênio e sustentabilidade, mesmo que sua rotina tenha se afastado da atuação tradicional da profissão.

A pandemia de Covid-19 também marcou a trajetória profissional. Em uma área acostumada a treinamentos, provas e certificações presenciais, foi necessário transformar rapidamente a maneira de trabalhar. Neiva participou da organização da primeira experiência de curso on-line de sua área dentro da empresa. O desafio era ainda maior em um ambiente que, segundo ela, mantinha forte tradição de ensino presencial.

A experiência na Alemanha, porém, não ficou limitada ao trabalho. Depois das dificuldades iniciais, Neiva passou a conhecer outros países europeus e fez das viagens um de seus principais hobbies. A localização e a infraestrutura facilitam deslocamentos que, comparados às dimensões brasileiras, parecem pequenos. De Munique, onde vive, é possível alcançar diferentes países em poucas horas.

Foi também na Alemanha que sua história ganhou novos personagens. Neiva conheceu Florian Loser, com quem se casou. Ele nasceu na região de Dachau, próxima a Munique, e possui formação e experiência profissional na área elétrica e industrial, tendo trabalhado, conforme relatado na entrevista, em empresas como BMW e Mercedes. O casal encontrou rapidamente afinidade nos projetos de vida e na intenção de formar uma família.

Henry chegou há apenas cinco meses e mudou novamente a rotina. A viagem a Ibirubá foi a primeira grande experiência do casal viajando com o bebê. Para Neiva, o período também coincide com uma fase diferente da carreira. Ela optou por um afastamento de dois anos para se dedicar à maternidade. Conforme explicou, o sistema permite organizar o período de licença entre os pais e possibilita diferentes combinações de afastamento e retorno ao trabalho.

No caso dela, o primeiro ano prevê recebimento de auxílio, enquanto o segundo será um período sem remuneração. Há ainda possibilidades de retorno com jornada reduzida e de distribuição de parte do afastamento ao longo dos primeiros anos de vida da criança. Para a família, foi justamente essa pausa profissional que criou a oportunidade de realizar uma visita mais longa ao Brasil.

A maternidade também apresentou a Neiva outro aspecto do sistema alemão. Henry nasceu prematuro e o parto teve complicações. Ela contou que perdeu muito sangue, precisou receber transfusão e permaneceu dois dias na UTI. Ao todo, a família passou oito dias no hospital. Florian permaneceu com o filho enquanto ela recebia os cuidados médicos.

A experiência foi lembrada com gratidão. Neiva relatou que possui seguro de saúde obrigatório, cujo custo, na condição de empregada, é dividido entre trabalhador e empresa. Hospitalização, procedimentos e a estrutura necessária durante o parto foram cobertos pelo sistema.

“Eles salvaram a minha vida. Eu estou aqui hoje para contar essa história”, resumiu ao recordar o atendimento recebido.

Viver em Munique também proporcionou a ela um olhar diferente sobre hábitos cotidianos. Um dos exemplos que mais chamaram sua atenção desde que chegou à Alemanha é a relação de confiança entre as pessoas. Neiva citou campos onde produtores cultivam flores e deixam ferramentas e preços disponíveis para que o próprio cliente escolha, corte e pague pelo que retirou, sem que alguém precise permanecer fiscalizando o local.

Outros costumes também passaram a fazer parte da rotina: embalar as próprias compras, utilizar sacolas reutilizáveis e valorizar pequenos trabalhos feitos manualmente. São hábitos simples que, segundo ela, estão ligados tanto à cultura quanto à preocupação ambiental.

O transporte talvez seja uma das diferenças mais visíveis. Neiva mora perto do trabalho e, ao explicar como poderia chegar até a empresa, citou metrô, caminhada e bicicleta. O carro sequer apareceu inicialmente entre as alternativas. Em Munique, segundo relatou, é comum que moradores pedalem até estações de trem ou metrô e continuem a viagem pelo transporte público. O hábito permanece inclusive durante o inverno e em temperaturas negativas.

Mesmo depois de quase uma década, a ligação com Ibirubá permaneceu. No início, as visitas eram mais difíceis, especialmente enquanto Neiva tentava se estabelecer profissionalmente. Ela lembra que, no primeiro emprego, recebeu uma surpresa do chefe: poucos meses depois de contratá-la, sabendo que estava havia bastante tempo longe da família, ele sugeriu que tirasse um mês para visitar o Brasil.

Ela veio sem avisar.

Depois disso, as viagens passaram a ocorrer com maior frequência, enquanto seus familiares também começaram a visitá-la na Alemanha. A distância física continuou existindo, mas a relação familiar encontrou formas de atravessar o oceano.

Desta vez, porém, o retorno teve significado especial. Foi a oportunidade de apresentar Henry pessoalmente ao avô materno. A mãe de Neiva já havia viajado à Alemanha depois do nascimento e permanecido algumas semanas com a filha. O pai, agricultor no interior de Ibirubá, conheceu o neto somente nesta visita.

Ele também participou da entrevista e não escondeu a emoção. Natural de Lagoa Vermelha, mas morador de Ibirubá desde os seis anos de idade, acompanhou a filha deixando a propriedade da família para estudar em Passo Fundo, depois seguindo para Porto Alegre, São Paulo e, finalmente, atravessando o Atlântico.

Cada mudança aumentava a distância.

Primeiro foi a graduação. Depois o mestrado. Em seguida, o doutorado. Até que veio a Alemanha.

Ao falar sobre o encontro com o neto, resumiu a emoção de maneira simples: esperava aquele momento havia muito tempo.

Há algo simbólico também na história da família. Descendentes de alemães que construíram sua vida no interior gaúcho agora veem uma nova geração nascer justamente na Alemanha. Henry carrega, assim, uma história familiar que atravessou o oceano em sentidos opostos ao longo das gerações.

O pai de Neiva reconhece a saudade e admite que gostaria de ter a filha mais perto. Ao mesmo tempo, diz respeitar a escolha que ela fez. Se um dia a família decidir retornar ao Brasil, será recebida. Se permanecer na Alemanha, também terá seu apoio.

Ele próprio não pensa em deixar Ibirubá. Depois de mais de seis décadas vivendo na região, encontrou uma imagem para explicar sua ligação com a terra:

“A árvore velha não se transplanta mais.”

Para Neiva, entretanto, a experiência de se transplantar foi justamente o que definiu boa parte de sua vida adulta. Quando decidiu ir embora, não havia emprego esperando, uma carreira garantida ou certeza de que tudo funcionaria. Havia um projeto. E havia preparação.

Por isso, quando questionada sobre o que recomendaria a alguém que sonha em viver no exterior, ela colocou o idioma entre as prioridades. A vontade de partir é importante, mas precisa ser acompanhada de planejamento financeiro, conhecimento da língua e clareza sobre o caminho profissional que se pretende seguir.

Sua própria trajetória não foi linear. Durante o período em São Paulo, trabalhou também como modelo e atriz e não concluiu o doutorado. Mais tarde, na Alemanha, conseguiu reunir experiências aparentemente distantes: a formação científica, o contato com o público, a experiência em vendas, o domínio de idiomas e a capacidade de organização.

Hoje, vive em Munique, uma cidade na qual encontrou o equilíbrio entre tradição e modernidade. Conheceu diferentes lugares da Europa, acompanhou jogos do Bayern de Munique e guarda até uma camisa autografada por Thomas Müller. Mas é na vida cotidiana — no trabalho, no metrô, nas bicicletas, nas viagens curtas, na casa construída com Florian e agora nos cuidados com Henry — que a Alemanha deixou de ser simplesmente o país para onde ela foi e passou a ser também o lugar onde construiu sua família.

Nesta passagem pelo Brasil, o roteiro é diferente das viagens turísticas que tanto aprecia. A família pretende permanecer em Ibirubá até o retorno à Alemanha, marcado para 7 de outubro. O sogro alemão também veio ao Brasil pela primeira vez. Enquanto muitos brasileiros e descendentes de alemães seguem para Munique nesta época atraídos pela Oktoberfest, Neiva brinca que fez o caminho contrário: deixou a festa para trás para encontrar a família no interior gaúcho.

É justamente nesse movimento entre dois lugares que sua história encontra sentido. Ibirubá continua sendo o lugar das raízes, dos pais, das lembranças da escola e do início da paixão pela Química. Munique tornou-se o espaço da carreira, da independência, do casamento e do nascimento do filho.

Depois de quase dez anos, Neiva não fala apenas sobre como é morar na Alemanha. Sua trajetória mostra o que existe entre o momento de decidir partir e o momento em que um lugar distante passa a ser chamado de casa: aprender outra língua, ouvir negativas, começar por empregos menores, adaptar-se a novos costumes, construir relações e descobrir que pertencer a um novo país não exige necessariamente deixar de pertencer ao lugar de onde se veio.

Agora, com Florian ao lado e Henry nos braços, a história iniciada no interior de Ibirubá ganhou uma nova geração — e continua sendo escrita entre o Brasil e a Alemanha.

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