
Quatro décadas de trabalho diário, decisões difíceis e uma relação direta com as pessoas moldaram a história de um dos empresários mais longevos e respeitados do varejo regional.
A história de Lair Grave é marcada por uma construção lenta, feita sem atalhos. Criado no interior de Ibirubá, em um tempo em que não havia energia elétrica e o trabalho começava cedo, ele aprendeu ainda menino que nada vinha pronto. Trabalhou com arado de boi, ajudando o pai na lavoura, em uma rotina que, segundo ele, ensinava mais do que qualquer discurso. Naquele tempo, sair para um baile exigia pedir dinheiro ao pai e devolver o troco no dia seguinte.
A virada começou quando decidiu buscar algo além da agricultura. Criava frangos no interior e passou a vendê-los diretamente na cidade. Foi nesse contato direto que surgiu o aprendizado que o acompanharia por toda a vida. Ele conta que nunca frequentou cursos formais de supermercado, porque o maior ensinamento vinha da prática. “O melhor curso que eu fiz foi ouvindo o cliente. O que ele reclamava, o que elogiava. Sem cliente, não existe supermercado”, afirma.
Em 29 de julho de 1984, deu o passo mais arriscado da sua vida. Assumiu a antiga Casa das Carnes Transmontana, em um prédio alugado na esquina das ruas Diniz Dias e Firmino de Paula. “Quando eu comecei, não sabia nem tirar nota fiscal. Foi tudo aprendizado no dia a dia”, recorda.
Seis anos depois, tomou uma decisão que muitos consideravam ousada: comprou um terreno então visto como distante do centro urbano e construiu a sede própria na Rua 3 de Outubro. Ele lembra que a aposta foi feita pensando no futuro.
“Eu pensei que a cidade ia crescer, e cresceu.” Foi ali que o negócio deixou de ser apenas um açougue e se transformou em supermercado. “Antes era só carne. Depois vieram as prateleiras, os produtos, o atendimento completo.”
O crescimento nunca foi acelerado. Lair sempre optou por avançar com cautela. Novas unidades surgiram aos poucos, primeiro em Ibirubá, na Avenida Brasil com a Mauá. Depois em Tapera, Espumoso e Não-Me-Toque. Em Espumoso, onde o supermercado foi construído do zero, a consolidação foi rápida. “Espumoso sempre foi fora da curva. Foi uma bênção”, resume.
A caminhada, no entanto, não foi linear. Em Não-Me-Toque o mercado foi vendido. Entre 2018 e 2024, a rede enfrentou o período mais difícil da trajetória. Problemas familiares e administrativos impactaram diretamente o negócio. Houve queda de faturamento e perda de clientes. Ele reconhece que o momento foi duro também emocionalmente. “Quando a gente entra em declínio, muita coisa muda. Amigos se afastam, o ânimo cai.” Ainda assim, ficou uma lição clara sobre quem realmente sustenta um negócio. “O melhor cliente é aquele que reclama e volta. O que não reclama, simplesmente vai embora.”
A recuperação veio com reorganização interna, trabalho e foco em qualidade. Um dos diferenciais sempre defendidos por Lair foi manter carne própria, controlando todo o processo. “Eu tenho orgulho de trazer o animal do campo, fazer o abate e colocar a carne no balcão. É difícil, é muito fiscalizado, mas dá segurança para quem consome.”
O ano de 2025 marcou a virada definitiva. As quatro unidades voltaram a crescer mês a mês. Hoje, o Regional Supermercados emprega cerca de 150 pessoas e ultrapassa a marca de 5 milhões em faturamento mensal. Para Lair, os números importam, mas não definem o legado. “O que mais me deixa feliz é ver gente que começou aqui, teve o primeiro emprego e depois seguiu a vida.”
Mesmo após mais de 41 anos de atividade, ele segue presente no dia a dia. Conta que nunca conseguiu se afastar totalmente do trabalho. “Eu fiz do supermercado a minha casa. É o meu segundo lar.” Sem planos de novas expansões territoriais, o foco agora está em modernizar estruturas e melhorar a experiência do cliente. “Se der para melhorar, a gente melhora. Se não, seguimos bem como estamos.”
Ao olhar para trás, Lair Grave não fala em sucesso fácil. Fala em insistência. Em erros, acertos e recomeços. E resume sua história com a simplicidade de quem construiu tudo trabalhando: “Se não deu em um ano, tenta no outro. Uma hora dá.”





















