
Região amplia ações para preservar identidades, garantir direitos e articular políticas culturais com base em escuta, pesquisa e formação comunitária
Nas terras vermelhas e silenciosas de Rincão dos Caixões, em Jacuizinho (RS), uma movimentação incomum marcou o final de semana. Entre rodas de conversa, oficinas e apresentações culturais, lideranças quilombolas do Alto Jacuí protagonizaram dois dias de escuta, reflexão e articulação. O encontro, realizado nos dias 27 e 28 de junho, reuniu representantes de comunidades de Salto do Jacuí, Fortaleza dos Valos e Jacuizinho, em um esforço conjunto por mais visibilidade, acesso a políticas públicas e fortalecimento de suas memórias.
A atividade faz parte do Programa Nacional dos Comitês de Cultura (PNCC), ligado ao Ministério da Cultura e ao IFSul, que busca descentralizar as políticas culturais e levá-las até os territórios historicamente esquecidos. Entre os articuladores, estava o agente territorial de cultura Mateus Abreu, de Cruz Alta. Jornalista e artista com trajetória na militância cultural, Mateus conduz oficinas e formações para comunidades quilombolas de toda a região.
“Estamos tratando de cultura, mas também de direitos humanos. São famílias que só conseguiram a autorização para plantar em suas terras há pouco mais de uma década, mesmo vivendo ali desde os anos 1970”, destacou.
Além das formações sobre elaboração de projetos e estratégias de articulação comunitária, os participantes vivenciaram momentos de troca entre gerações, com exposições artísticas e a exibição do documentário Terra de Quilombos. A programação incluiu ainda um painel conduzido pelo historiador Maurício Lopes, que pesquisa a genealogia do Capão dos Lopes, em Fortaleza dos Valos.
“Esses encontros são fundamentais para que as comunidades compartilhem experiências, articulem seus caminhos e descubram que suas histórias importam. Muitas vezes, esses territórios resistiram por décadas sem sequer saber que eram quilombos”, pontuou.
O desafio, segundo ele, está em preservar a memória coletiva e garantir a permanência das comunidades, hoje ameaçadas pelo esvaziamento rural e pela pressão sobre os territórios. “Estamos falando de lugares onde vivem seis famílias em três hectares de terra. A afirmação quilombola é um instrumento de resistência que precisa ser reconhecido, protegido e fomentado com políticas públicas reais e contínuas”, reforçou Maurício.
A proposta dos comitês e agentes territoriais é justamente essa: apoiar a organização das comunidades, oferecer ferramentas de acesso à política cultural e promover o reconhecimento de identidades que foram apagadas por décadas. Mateus completa: “A cultura é o canal para a autoestima e a afirmação. Quando uma criança do quilombo deixa de ter vergonha de dizer quem é, se torna um sinal de que algo está florescendo. Mas é preciso continuidade, formação constante, articulação em rede. A resistência é coletiva.”
O evento também serviu para impulsionar novas articulações acadêmicas e culturais. Maurício Lopes, que finaliza seu doutorado com base nas memórias afrodescendentes da região, compartilhou que sua pesquisa deve auxiliar diretamente no processo de titulação de terras em comunidades de Fortaleza dos Valos. O relatório de identificação, elaborado com apoio da Universidade Federal de Santa Maria, será um passo decisivo para garantir o direito à terra desses grupos.
No campo, onde os valos guardam histórias e as cercas não separam a ancestralidade, o encontro foi semente. Uma aposta silenciosa — mas firme — de que os quilombos do Alto Jacuí resistem, se reinventam e seguem em marcha.























