26 de Junho, 2026 10h06mAgronegócio por JORNALISTA CRISTIANO LOPES

Cotribá: Como a mais antiga cooperativa agropecuária do Brasil chegou a esta crise e como sairemos dela

Série especial do Jornal O Alto Jacuí reconstrói os acontecimentos que antecederam a maior crise da história da mais antiga cooperativa agropecuária do Brasil.

Assembleia Geral Ordinária de 2023 aprovou balanço patrimonial, demonstrativos financeiros e pareceres dos órgãos de fiscalização da Cotribá. Três anos depois, a cooperativa enfrenta uma das maiores crises de sua história, enquanto auditorias buscam esclarecer quando os problemas começaram e como passaram pelos mecanismos de controle da instituição.
Assembleia Geral Ordinária de 2023 aprovou balanço patrimonial, demonstrativos financeiros e pareceres dos órgãos de fiscalização da Cotribá. Três anos depois, a cooperativa enfrenta uma das maiores crises de sua história, enquanto auditorias buscam esclarecer quando os problemas começaram e como passaram pelos mecanismos de controle da instituição.

 

Cotribá: Como a mais antiga cooperativa agropecuária  do Brasil  chegou a esta crise e como sairemos dela

 

Em 3 de fevereiro de 2023, centenas de associados se reuniram na Asfuca, em Ibirubá, para a Assembleia Geral Ordinária e Extraordinária da Cotribá. Naquele dia, a cooperativa apresentou números que reforçavam sua posição entre as gigantes do agronegócio gaúcho: faturamento de R$ 4,09 bilhões, crescimento de 15,8% em relação ao ano anterior e a distribuição de R$ 28,9 milhões em benefícios aos associados.
“Buscamos e seguiremos fazendo uma gestão com transparência e diálogo”, declarou o então presidente Celso Leomar Krug ao ser reconduzido ao cargo. O vice-presidente, Enio Cezar Moura do Nascimento, destacou o orgulho de representar uma cooperativa que, segundo ele, estava cada vez mais forte e atuante.
Naquele momento, a Cotribá contabilizava 9.178 associados, estava presente em 27 municípios, mantinha 65 estabelecimentos comerciais e possuía capacidade de armazenagem de 12,9 milhões de sacas.
Pouco mais de três anos depois, a realidade é completamente diferente.
A cooperativa enfrenta uma dívida estimada em R$ 1,5 bilhão, está mergulhada em disputas judiciais, aguarda definições sobre seu processo de recuperação judicial, acumula centenas de demissões, convive com produtores cobrando valores em aberto e conduz uma auditoria investigativa para apurar fatos que podem ter contribuído para o atual cenário.
A distância entre essas duas fotografias da mesma instituição é o ponto de partida desta série especial do Jornal O Alto Jacuí.
Mais do que acompanhar os desdobramentos da crise, o objetivo é reconstruir os acontecimentos que levaram uma das mais tradicionais cooperativas do país à situação atual. O que aconteceu entre as assembleias que celebravam crescimento e o momento em que a cooperativa passou a discutir sobrevivência? Quais decisões marcaram esse período? Quem sabia o quê? E em que momento os sinais deixaram de ser apenas alertas para se transformarem em uma crise sem precedentes?

 

O Dia em que a conta chegou

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Toda grande crise produz uma narrativa oficial e uma realidade que, muitas vezes, só aparece depois.
Ao olhar para a trajetória recente da Cotribá, chama atenção o contraste entre o discurso público apresentado aos associados e os fatos que passaram a ser revelados nos últimos meses pela atual direção.
Enquanto a cooperativa divulgava resultados, distribuía benefícios e projetava expansão territorial, problemas profundos se desenvolviam nos bastidores.
Nas entrevistas concedidas recentemente pelo atual presidente, Carlos Waldemar Wilke Diehl, surgiram relatos que ajudam a dimensionar o tamanho do desafio encontrado pela nova administração.
Entre eles está uma negociação que prometia um aporte de R$ 1,04 bilhão para a cooperativa e que, segundo a atual gestão, jamais se concretizou. Conforme relatado pelo presidente, a operação teria gerado prejuízos milionários e hoje integra o conjunto de fatos analisados pela auditoria investigativa contratada pela cooperativa.
Também passaram a ser relatados problemas envolvendo antecipação de recebíveis, contratos de venda de grãos, negociações patrimoniais, operações financeiras hoje classificadas pela atual direção como irregulares e investimentos que ainda aguardam explicações.
Um dos episódios mais emblemáticos envolve a venda de milhares de sacas de soja para uma trading que, segundo a atual gestão, não teria realizado o pagamento. O caso está judicializado e integra as investigações conduzidas pela cooperativa.
Outro fato citado refere-se à instalação de um sistema de geração de energia solar na fábrica de rações. Segundo a nova direção, o investimento superior a R$ 1,4 milhões ainda não produziu um único quilowatt de energia, além de apresentar pendências técnicas e divergências entre o projeto contratado e a estrutura efetivamente instalada.
Também estão sob análise operações financeiras realizadas junto a associados. Em entrevista à imprensa, o atual presidente comparou parte dessas operações ao funcionamento de uma pirâmide financeira, afirmando que recursos captados pela cooperativa eram utilizados para sustentar compromissos já existentes. A declaração ainda depende das conclusões da auditoria e de eventual confirmação pelas autoridades competentes.
Ao mesmo tempo, a atual gestão afirma ter identificado casos envolvendo antecipações de recebíveis que acabaram gerando cobranças e negativações de produtores rurais que, segundo a própria cooperativa, já haviam cumprido suas obrigações.
São fatos graves.
Mas talvez a questão mais relevante neste momento não seja apenas o que aconteceu.
A pergunta central é outra.
Como tudo isso aconteceu sem que o quadro social tivesse dimensão da gravidade da situação? E onde estavam os órgãos de governança, de gestão e de fiscalização da cooperativa?

 

Em 2023, tudo parecia dar certo
 A resposta pode estar justamente no período em que a crise ainda não era pública.
Quando os associados se reuniram na assembleia de fevereiro de 2023, receberam informações que apontavam crescimento, expansão e fortalecimento institucional.
Na mesma reunião em que foram apresentados os resultados bilionários da cooperativa, também foram aprovados o balanço patrimonial, os demonstrativos financeiros, os pareceres dos órgãos de fiscalização e a composição dos conselhos responsáveis pela governança da instituição.
Entre os integrantes do Conselho de Administração daquele período estavam nomes que continuam participando da condução da cooperativa atualmente, entre eles o atual presidente Carlos Waldemar Wilke Diehl e o atual vice-presidente Sérgio Strentzke.
A estrutura de governança da Cotribá contava ainda com Conselho Fiscal, Conselho Consultivo e auditorias independentes responsáveis pelo acompanhamento da situação da cooperativa.
Por isso, uma das questões que passa a ganhar importância é compreender quais informações chegavam aos órgãos de controle ao longo desse período e em que momento os problemas começaram a se tornar perceptíveis.
A auditoria investigativa contratada pela atual direção ainda está em andamento e deverá produzir um relatório detalhado sobre parte dos fatos hoje relatados pela cooperativa.
Até lá, muitas das afirmações apresentadas pela nova gestão permanecem no campo das alegações que ainda precisarão ser comprovadas documentalmente e eventualmente analisadas pelas autoridades competentes.
Mesmo assim, um fato já parece evidente.
A crise que explodiu em 2026 não nasceu em 2026.
Ela estava sendo construída muito antes de se tornar manchete.
E é justamente nesse intervalo, entre a imagem de prosperidade e a revelação do tamanho do passivo, que esta série começa sua investigação.
Na próxima edição, a reportagem acompanha quem passou a carregar o peso mais imediato da crise: os trabalhadores desligados, os produtores credores e as famílias que aguardam respostas enquanto a cooperativa tenta construir um caminho para sua recuperação.

 

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