
A crise financeira da Cotribá ganhou contornos ainda mais amplos com a divulgação da lista de credores anexada ao processo de recuperação judicial da cooperativa gaúcha, revelando um passivo de R$ 1,4 bilhão distribuído entre 20.614 credores, incluindo produtores rurais, instituições financeiras, fundos de investimento e grandes empresas do agronegócio.
Os números expõem a dimensão de uma crise que atinge diretamente o setor produtivo regional e nacional. Conforme os dados do processo, R$ 1,3 bilhão correspondem a créditos quirografários (sem bem como garantia real da dívida), envolvendo 19.624 credores. Outros R$ 99,7 milhões referem-se a créditos com garantia real, enquanto R$ 10,2 milhões dizem respeito a débitos trabalhistas.
A documentação, com cerca de 1,7 mil páginas e mais de 78 mil registros de débitos, reforça o peso da situação enfrentada pela cooperativa, cuja tentativa de recuperação judicial ainda não obteve êxito na Justiça gaúcha.
Entre os setores mais impactados estão justamente os produtores rurais associados, que concentram parcela significativa dos créditos. Estimativas já apontadas anteriormente por dirigentes da própria cooperativa indicavam que os débitos com produtores giravam em torno de R$ 900 milhões. Muitos desses credores possuem valores menores, abaixo de R$ 10 mil, embora haja registros expressivos, incluindo um único CPF com R$ 2,5 milhões a receber.
No sistema financeiro, os débitos somam pelo menos R$ 527,1 milhões. O principal credor é o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), com R$ 134,8 milhões a receber. O banco foi, inclusive, o principal financiador da fábrica de ração da Cotribá instalada na Avenida Brasil em Ibirubá, inaugurada em agosto de 2024, com aporte informado de R$ 87 milhões.
Na sequência aparecem Caixa Econômica Federal (R$ 94,6 milhões), Santander (R$ 46,7 milhões), Banco do Brasil (R$ 45,6 milhões), Sicredi Cooperativa Centro Leste (R$ 38,9 milhões) e Banrisul (R$ 37,6 milhões).
Outras instituições financeiras também aparecem na lista, como Banco ABC Brasil (R$ 25,5 milhões), Bradesco (R$ 17,5 milhões), Banco Votorantim (R$ 15,8 milhões), Banco Industrial (R$ 14 milhões), Banco Cooperativo Sicredi (R$ 13,9 milhões), Banco Pine (R$ 10,7 milhões), Banco Original (R$ 10,1 milhões), Sicredi Cooperativa Rota das Terras (R$ 7,8 milhões), Daycoval (R$ 2,8 milhões), Sofisa (R$ 1,6 milhão) e Banco Volvo (R$ 369,3 mil).
O setor de capitais também aparece entre os atingidos. A Ecoagro surge com R$ 93,2 milhões a receber. Parte da exposição está ligada a operações estruturadas por meio de seis CRAs emitidos entre 2020 e 2024. Um desses títulos, de R$ 150 milhões, deixou de ser honrado em novembro do ano passado.
O reflexo da inadimplência também aparece no Cotribá Fiagro, gerido pela Eco Gestão de Ativos. Em março deste ano, o fundo tinha carteira de R$ 246,3 milhões, com R$ 82,9 milhões em atraso superior a 90 dias. A provisão para devedores duvidosos saltou de 1% para 27,6% em um ano.
Entre as empresas de insumos, a Ihara tem R$ 50,6 milhões a receber. A Bayer, considerando também a Monsanto do Brasil, soma R$ 34,3 milhões. Também aparecem Cibra (R$ 27 milhões), Basf (R$ 20 milhões), Corteva (R$ 20 milhões), FMC (R$ 6,9 milhões), ICL (R$ 4 milhões), Syngenta Proteção de Cultivos (R$ 2 milhões) e Syngenta Seeds (R$ 739,5 mil).
Os contratos foram firmados entre 2020 e 2025, e parte dos primeiros vencimentos começa já em outubro, aumentando a pressão sobre um dos casos mais relevantes do cooperativismo agropecuário gaúcho nos últimos anos.





















