
Levantamento da Emater aponta impacto irregular nas lavouras, com áreas críticas e outras ainda dentro da normalidade produtiva
A irregularidade das chuvas ao longo do verão mudou o cenário da safra de soja em Ibirubá e na região do Alto Jacuí. O que começou com expectativa positiva no plantio terminou com preocupação em parte das propriedades, especialmente nas áreas mais afetadas pela estiagem. A avaliação é de Oneide Kuhn e Fabiano Gregório, do escritório local da Emater, que acompanham semanalmente a evolução das lavouras.
Segundo Oneide, o ciclo iniciou dentro da normalidade, com o plantio concluído entre novembro e início de dezembro.
“A implantação da cultura da soja ocorreu dentro de uma normalidade. Tivemos chuvas importantes no final do ano, que inclusive abasteceram açudes e mananciais”, explicou.
No entanto, o cenário mudou rapidamente a partir de janeiro. “As chuvas passaram a ser irregulares, mal distribuídas e, em muitos casos, insuficientes para o desenvolvimento das plantas, principalmente na fase de florescimento da soja”, destacou.
O reflexo dessa instabilidade climática não foi uniforme. Conforme Fabiano Gregório, o município contabiliza cerca de 45 mil hectares de soja, com comportamentos distintos conforme a localização.
“Nós temos áreas com produtividade dentro da normalidade, chegando a 60 sacas por hectare, e outras com perdas significativas”, afirmou.
As regiões mais afetadas concentram-se em um corredor próximo aos rios Jacuizinho e Pinheirinho, onde a falta de chuva foi mais severa.
Nessas localidades, a produtividade pode ficar entre 25 e 40 sacas por hectare, o que preocupa especialmente produtores com custos elevados. “Estimamos que cerca de 4 mil hectares, algo entre 8% e 10% da área do município, tenham sido fortemente impactados”, detalhou Fabiano. Ainda assim, ele pondera que o cenário geral pode ser melhor que o da safra anterior. “No ano passado a média foi de 40 sacas, e a expectativa é superar esse número, embora ainda estejamos avaliando como as lavouras vão responder às últimas chuvas.”
Além da soja, o milho já havia sentido os efeitos da estiagem ainda no início do ciclo.
“O milho sofreu impacto na fase de florescimento, principalmente no final de novembro e início de dezembro, o que já indicava um cenário mais desafiador”, explicou Oneide.
Apesar disso, na produção leiteira os efeitos são considerados mais moderados até o momento. “O impacto existe, principalmente pelo estresse térmico dos animais, mas não é tão significativo quanto na lavoura. Muitos produtores estão mais tecnificados e conseguem reduzir perdas”, pontuou.
Outro ponto levantado pelos técnicos é o desafio de mensurar e encaminhar medidas de apoio às famílias mais atingidas. A possibilidade de decreto de emergência segue em análise, mas depende de critérios técnicos. “A média do município ainda não permite um enquadramento imediato. Porém, é possível trabalhar com laudos pontuais para comunidades específicas que sofreram perdas maiores”, explicou Oneide. Segundo ele, o fator determinante para avançar nesse processo é a caracterização de danos humanos. “Se esse critério for comprovado, é possível encaminhar medidas de apoio mesmo sem um decreto amplo”, afirmou.
No campo, o impacto vai além dos números. A pressão financeira e a sucessão de frustrações climáticas têm afetado diretamente as famílias rurais.
“Quando a gente fala em média, parece um número frio, mas por trás disso existem famílias que não vão cobrir nem o custo de produção”, destacou Fabiano.
Ele reforça que a falta de margem limita investimentos e compromete o futuro das propriedades. “Isso impacta na continuidade da atividade, na permanência dos jovens no campo e no próprio modelo produtivo.”
Diante desse cenário, a diversificação surge como alternativa, embora ainda enfrente resistência. “Quando a propriedade depende de poucas atividades e essas são impactadas, todo o sistema fica vulnerável. Por isso, a gente sempre orienta a buscar alternativas dentro das possibilidades de cada família”, explicou.
IRRIGAÇÃO
A estiagem também reacende o debate sobre infraestrutura hídrica. Hoje, apenas uma pequena parcela das áreas conta com irrigação. “Mesmo com avanços, ainda temos limitações para armazenar água em escala suficiente. A melhor forma de reter água continua sendo o próprio solo, com manejo adequado”, ressaltou Oneide.
Enquanto a colheita avança, o cenário segue sendo acompanhado de perto. Entre perdas pontuais e áreas que ainda apresentam bom desempenho, a safra de 2026 se desenha como mais um capítulo de instabilidade para o produtor rural.





















