
O Jornal O Alto Jacuí publica nesta edição uma série especial sobre o concurso público de Fortaleza dos Valos, baseada na análise de documentos oficiais, decisões judiciais, manifestações do Ministério Público, atos administrativos, entrevistas e apuração própria. O objetivo é contextualizar os fatos e apresentar a cronologia dos acontecimentos, sem antecipar julgamentos.
A redação buscou ouvir todas as partes envolvidas, incluindo o prefeito Paulo Cezar Marangon, e encaminhou questionamentos à Administração Municipal, publicando também as respostas da Prefeitura. Fiel ao compromisso de informar com responsabilidade, o Jornal O Alto Jacuí apresenta ao leitor informações de interesse público fundamentadas em documentos e no princípio do contraditório.
Do parecer que embasou a contratação da banca ao PAD contra a vereadora que denunciou o concurso, o nome do atual procurador jurídico de Fortaleza dos Valos, Vinícius do Couto Freese, aparece repetidamente nos principais documentos que marcaram a maior crise administrativa da atual gestão.
Há personagens que surgem em determinado momento de uma história. Outros atravessam todos os seus capítulos. No caso do concurso público de Fortaleza dos Valos, um nome aparece de forma recorrente desde antes da publicação do edital até os desdobramentos mais recentes da investigação conduzida pelo Ministério Público: o atual procurador jurídico do Município, Vinícius do Couto Freese.
A presença dele não decorre apenas do cargo que ocupa. Os documentos oficiais analisados pela reportagem mostram que sua atuação acompanha praticamente toda a cronologia do caso.
Foi Vinícius quem assinou atos relacionados ao processo que resultou na contratação da banca organizadora do concurso. Meses depois, tornou-se também candidato do próprio certame, sendo aprovado em primeiro lugar para o cargo de Agente de Controle Interno, função considerada estratégica dentro da estrutura administrativa municipal.
Quando a Promotoria de Justiça de Cruz Alta passou a investigar a contratação da banca e posteriormente ajuizou a Ação Civil Pública que levou à suspensão do concurso, Vinícius permaneceu ocupando a Procuradoria Jurídica e passou a exercer outro papel: o de principal defensor técnico da Administração Municipal.
Nas entrevistas concedidas pelo prefeito Paulo Cezar Marangon, foi ele quem assumiu a maior parte das explicações jurídicas. Demonstrando confiança na defesa do Município, afirmou que "a gente tem muita certeza, muita convicção" de que todos os atos praticados respeitaram a legislação. Em outro momento, reforçou a mesma tese: "Em nenhum momento escorregamos fora da linha da lei."
Entretanto, durante a mesma entrevista, o próprio procurador reconheceu qual é hoje o principal ponto discutido no processo judicial. Ao ser questionado sobre qual denúncia apresentaria maior consistência, respondeu: "A que tem mais base é a questão do procedimento licitatório." Trata-se justamente da contratação da banca organizadora — procedimento sobre o qual ele próprio emitiu parecer jurídico favorável e que hoje está no centro da investigação do Ministério Público.
Enquanto a ação civil pública avançava, outro procedimento envolvendo Vinícius passou a tramitar. Em recomendação administrativa, o Ministério Público entendeu que sua permanência na Procuradoria Jurídica contrariava a legislação municipal, por ainda se encontrar em estágio probatório no cargo efetivo de Oficial Administrativo. A Promotoria recomendou sua exoneração da função jurídica enquanto persistisse essa condição funcional. A recomendação, contudo, não foi acatada e Vinícius permaneceu à frente da Procuradoria.
PAD CONTRA VEREADORA
Seu nome voltaria a aparecer nos documentos da crise semanas depois. A Portaria nº 12.567/2026, que instaurou Processo Administrativo Disciplinar contra a vereadora Eduarda da Silva Soares — autora da representação que deu origem à investigação do concurso — registra expressamente que o procedimento foi instaurado a partir do Memorando Interno nº 17/2026-PGM, subscrito pelo próprio procurador. Isoladamente, cada um desses fatos possui natureza administrativa e jurídica distinta. Em conjunto, porém, eles revelam um dado objetivo: o mesmo agente público figura nos principais documentos que marcaram a evolução da crise, desde a contratação da banca examinadora até os seus desdobramentos políticos, administrativos e judiciais.






















