Antes de aprovar, é preciso explicar
A proposta de parceria de R$ 3,777 milhões para o Hospital Annes Dias em Ibirubá exige análise cuidadosa e transparente. A população deve ser informada sobre os serviços ampliados e a fiscalização dos recursos antes da aprovação.
Ninguém discute a importância do Hospital Annes Dias para Ibirubá. É justamente por reconhecer seu papel essencial que uma parceria de R$ 3,777 milhões precisa ser analisada com responsabilidade, transparência e a atenção que o dinheiro público exige. Quanto maior a relevância da instituição e o volume de recursos envolvidos, maior deve ser o cuidado com as condições estabelecidas.
A apuração do Jornal O Alto Jacuí mostrou que o novo valor supera em 12,5% a média dos pagamentos municipais feitos ao hospital entre 2023 e 2025. Também revelou que o projeto chegou à Câmara sem o Plano de Trabalho citado no próprio texto e sem esclarecer como ocorrerá a transição dos contratos e credenciamentos ainda vigentes. Afinal, aparentemente espera-se que os vereadores aprovem primeiro e descubram depois exatamente o que estão aprovando — uma inversão bastante conveniente, embora pouco compatível com a responsabilidade de fiscalizar recursos públicos.
O secretário da saúde, Rogério Mauri de Oliveira, sustenta que a intenção é unificar os pagamentos, organizar uma relação que hoje funciona por diferentes instrumentos e ampliar alguns serviços. É uma explicação relevante e o novo modelo pode, de fato, oferecer maior previsibilidade ao hospital. Entretanto, garantias verbais não substituem metas, números, obrigações e mecanismos de fiscalização formalizados nos documentos submetidos ao Legislativo.
Também não basta afirmar que os recursos já eram destinados ao hospital. A nova parceria representa R$ 420,7 mil a mais do que a média anual dos últimos três anos e estabelece uma parcela fixa de R$ 314.750. É legítimo ampliar o investimento, desde que a população saiba quais serviços serão ampliados, quantos atendimentos serão garantidos e de que maneira os resultados serão acompanhados.
Ao ser procurado pelo Jornal O Alto Jacuí para conceder uma entrevista sobre o projeto, o diretor Odair Funck afirmou que só se manifestaria depois da aprovação. A hora de explicar é agora, enquanto a proposta pode ser examinada, aperfeiçoada ou corrigida. Depois da votação, as explicações poderão ajudar a compreender o funcionamento do acordo, mas já não terão o mesmo poder de influenciar seu conteúdo.
A reunião marcada para o dia 10 entre o secretário e os vereadores será, portanto, decisiva. Quem sabe o encontro possa ser transformado em uma audiência pública, aberta ao Conselho Municipal de Saúde, aos usuários do SUS, à população, às entidades representativas e aos órgãos responsáveis pelo acompanhamento dos recursos públicos. Uma decisão dessa dimensão não precisa ficar restrita a uma conversa interna entre Executivo e Legislativo.
Não se trata de ser contra o Hospital Annes Dias. Trata-se de impedir que a reconhecida importância da instituição seja usada para abreviar uma discussão necessária. Apoiar um serviço essencial e fiscalizar a aplicação dos recursos públicos não são posições opostas. São responsabilidades que devem caminhar juntas — e que precisam ser exercidas antes da aprovação, não depois dela.






