Quando o mensageiro vira notícia
Há uma velha máxima no jornalismo: quando faltam argumentos para enfrentar os fatos, muda-se o foco da discussão. Em vez dos documentos, discute-se quem os publicou. Em vez das perguntas, questiona-se quem perguntou. O mensageiro passa a ser mais importante do que a mensagem. Foi exatamente essa sensação que ficou após acompanhar as entrevistas concedidas nesta semana sobre o concurso público de Fortaleza dos Valos. Em determinado momento, ouviu-se um apelo para que a população acreditasse apenas nos "veículos sérios de comunicação". Concordo. Mas um veículo sério não é aquele que publica apenas aquilo que conforta quem exerce o poder. Também não é aquele que substitui documentos por opiniões. Um veículo sério é aquele que consegue provar aquilo que publica.
E aqui existe uma diferença importante. Até este momento, ninguém demonstrou que este jornal publicou uma informação falsa. Nenhuma decisão judicial foi desmentida. Nenhum documento apresentado nesta série de reportagens foi contestado por ser inexistente ou adulterado. Ainda assim, o debate passou a girar em torno do jornalismo, e não dos fatos que levaram o Ministério Público a investigar e a Justiça a suspender um concurso público. Isso diz muito. Porque, quando o centro da discussão deixa de ser o conteúdo dos documentos e passa a ser quem os revelou, talvez estejamos olhando para o lugar errado.
O papel da imprensa nunca foi investigar como o Ministério Público. Tampouco julgar como o Poder Judiciário ou administrar como o Executivo. O papel do jornalismo é muito mais simples e, talvez por isso mesmo, tão incômodo. Reunir documentos, perguntar, ouvir versões diferentes, contextualizar acontecimentos e permitir que o cidadão forme sua própria convicção.
Durante semanas, nossa equipe reuniu decisões judiciais, portarias, pareceres, pedidos de informação, processos administrativos, manifestações do Ministério Público, entrevistas, registros públicos e documentos obtidos pelos meios legais. Cada reportagem desta edição nasceu dessa apuração.
Ainda assim, o jornalismo tornou-se parte do debate. Talvez porque seja mais confortável discutir quem publica do que discutir o que foi publicado. Existe uma diferença fundamental entre denunciar e investigar. Denunciar é um direito do cidadão. Investigar é dever das instituições. Julgar é competência do Poder Judiciário. Noticiar é responsabilidade da imprensa.
Essas funções não se confundem. O Jornal O Alto Jacuí não instaurou a investigação do concurso. Não propôs a Ação Civil Pública. Não deferiu a liminar que suspendeu o certame. Não instaurou Processo Administrativo Disciplinar contra uma vereadora. Tampouco elaborou pareceres jurídicos ou participou da contratação da banca organizadora. Nosso trabalho começou quando esses documentos passaram a existir. E continuará enquanto houver fatos novos que mereçam ser explicados ao leitor.
Ao longo desta cobertura buscamos entrevistar todas as partes envolvidas. O prefeito Paulo Cezar Marangon foi procurado em diferentes oportunidades para conceder entrevista ao Jornal O Alto Jacuí e à Rádio Cidade. O convite permanece aberto. Sempre permanecerá. O contraditório nunca foi um problema para esta redação. Ao contrário, é uma obrigação ética e um compromisso permanente.
No fim, resta uma pergunta simples. O problema está em quem noticiou a investigação ou nos fatos que fizeram o Ministério Público investigar? Os governos passam. Os processos terminam. As eleições mudam. Os documentos permanecem. E é sobre eles, e não sobre simpatias, antipatias ou conveniências, que o jornalismo deve continuar sendo exercido.





