10 de Agosto, 2026 10h08mREPORTAGEM ESPECIAL por JORNALISTA CRISTIANO LOPES

REPORTAGEM ESPECIAL - A voz que não quer calar

Há personagens que entram para a história por ocupar cargos de poder. Outros acabam no centro dos acontecimentos simplesmente por decidir fazer perguntas.

Servidora efetiva, vereadora de primeiro mandato e autora da representação que levou o Ministério Público a investigar o concurso público. Em poucos meses, Eduarda da Silva Soares passou da atuação discreta na Câmara ao centro da maior crise política da atual administração de Fortaleza dos Valos.

Há personagens que entram para a história por ocupar cargos de poder. Outros acabam no centro dos acontecimentos simplesmente por decidir fazer perguntas.

Foi assim que a vereadora Eduarda da Silva Soares deixou de ser apenas mais um nome entre os nove parlamentares de Fortaleza dos Valos para se tornar uma das personagens mais conhecidas da atual legislatura. A autora da representação que levou o Ministério Público a investigar o concurso público hoje divide espaço entre sessões da Câmara, entrevistas, documentos oficiais e um Processo Administrativo Disciplinar instaurado pela própria Prefeitura onde também trabalha como servidora efetiva.

No exercício da função fiscalizatória, Eduarda passou a solicitar documentos relacionados à contratação da banca organizadora do concurso público. Pediu acesso ao processo administrativo, questionou a revogação da Dispensa de Licitação nº 31/2025, buscou esclarecimentos sobre a abertura da Dispensa nº 41/2025, solicitou informações sobre a pesquisa de preços e cobrou explicações sobre os critérios utilizados para a contratação da empresa responsável pelo certame.

As respostas não convenceram a parlamentar.

Foi nesse momento que decidiu encaminhar a documentação ao Ministério Público.
Meses depois, a Promotoria Especializada de Cruz Alta instaurou investigação, ajuizou Ação Civil Pública e obteve decisão liminar suspendendo o concurso público.

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Mas a relação entre Eduarda e a Administração Municipal já apresentava sinais de desgaste antes mesmo da crise do concurso.
Durante a discussão sobre as obras da RS-510, outro pedido de informações gerou um embate público entre Legislativo e Executivo. Na tribuna, ao comentar a resposta enviada pelo prefeito, a vereadora resumiu sua frustração em uma frase que passou a sintetizar sua forma de atuação: "Recebi um ofício, mas não respostas." E  rejeitou a ideia de que seus questionamentos buscassem provocar enfrentamentos políticos. "Estou fazendo o meu trabalho, que é fiscalizar. Trata-se de zelar pelo dinheiro público."
A partir da suspensão do concurso, o debate deixou os documentos e chegou aos microfones das emissoras de rádio. Em um primeiro momento, o prefeito Paulo Cezar Marangon concedeu entrevista à Rádio CBS, acompanhado de dois secretários municipais, classificando a denúncia como política e defendendo a legalidade do concurso. Durante o programa, o próprio entrevistador observou que os demais vereadores da oposição não demonstravam a mesma disposição de confronto, sugerindo um isolamento político da parlamentar dentro da própria bancada.

Dias depois, Eduarda buscou exercer o contraditório.
Como servidora efetiva do Município, protocolou pedido de liberação funcional para participar da mesma emissora e apresentar sua versão dos fatos. O requerimento foi indeferido pela Administração Municipal.
Nesta quarta-feira (6) , dois dias antes da circulação desta edição do Jornal O Alto Jacuí, o prefeito voltou à radio para uma nova entrevista. Acompanhado do atual procurador jurídico,  Vinicius Freese, reafirmou que a denúncia teve motivação política e justificou o indeferimento do pedido de liberação afirmando que o requerimento apresentado pela vereadora não informava que a ausência seria para participação em programa de rádio na condição de parlamentar.
Enquanto o debate público se intensificava, outro documento alterava novamente o rumo da história.

A Prefeitura instaurou Processo Administrativo Disciplinar contra a servidora Eduarda
Segundo a Administração Municipal, o PAD busca apurar possíveis infrações funcionais relacionadas ao exercício do cargo de servidora pública, entre elas a suposta utilização de equipamentos da Prefeitura durante a elaboração da representação encaminhada ao Ministério Público.

A vereadora apresenta versão diferente. Afirma que jamais confundiu o exercício do mandato com o vínculo funcional e sustenta que encaminhou a denúncia por entender que tinha o dever legal de comunicar aos órgãos competentes fatos que considerava relevantes para apuração. 
Hoje, meses depois dos primeiros pedidos de informação protocolados na Câmara, Eduarda ocupa uma posição singular na política de Fortaleza dos Valos. É autora da representação que desencadeou a investigação do Ministério Público. É alvo de um processo disciplinar instaurado pela Administração que fiscalizou. É a vereadora que teve negado o pedido de participação na emissora em que o prefeito apresentou sua versão dos fatos. E segue exercendo o mandato em uma cidade de 5 mil habitantes, onde oposição e governo convivem diariamente muito além das sessões da Câmara. 
Independentemente do desfecho judicial do concurso ou administrativo do PAD, uma constatação já pode ser feita: a crise deixou de ser apenas uma discussão sobre um concurso público. Transformou-se também em um debate sobre o papel da fiscalização parlamentar, os limites da atuação da oposição e o espaço reservado ao contraditório dentro da administração pública de um pequeno município.
 

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