
Três autores, três trajetórias e diferentes maneiras de transformar experiências, memórias e observações em literatura. Cláudia Willrich Klein, Eloi Edmundo Franz e Regina Corazza Tiemann Scheffer apresentam novas obras ao público de Ibirubá, levando para as páginas histórias que transitam entre o universo infantojuvenil, as lembranças familiares, a poesia e as reflexões sobre a existência humana. Os escritores participaram da programação da FELIBI, mas o encontro também colocou em evidência quem está por trás dos livros e os caminhos percorridos até a publicação.
A trajetória de Eloi Edmundo Franz com a escrita começou ainda na adolescência. Aos 13 ou 14 anos, uma redação produzida em sala de aula foi escolhida pelo professor e acabou publicada em quatro páginas da revista Salette, que possuía circulação nacional. Décadas depois, ele ainda identifica aquele episódio como um dos momentos que ajudaram a despertar sua relação com as palavras.
Professor de Português e Literatura, Franz construiu uma vida profissional ligada à educação, à música, aos corais e à preservação da memória. Em Ibirubá, assumiu o Coral Municipal em 1983 e posteriormente esteve à frente do Coral Utopia. Também trabalhou durante 28 anos com atividades destinadas à terceira idade.
A pesquisa histórica e familiar tornou-se outra de suas paixões. Ao longo dos anos, reuniu milhares de registros genealógicos e colaborou na construção da história de diferentes famílias da região. O interesse começou ainda na década de 1980, quando um tio que vivia na Alemanha o desafiou a pesquisar os registros existentes no Brasil enquanto ele faria o levantamento europeu.
Parte dessa caminhada aparece agora em “Lembranças”. A obra reúne registros familiares, acontecimentos relacionados aos antepassados, poesias, textos e histórias preservadas ao longo dos anos.
“Juntei o que eu tinha, o que podia aproveitar e mandei para a editora”, contou Franz. O livro percorre histórias de bisavós, avós e pais, sem se limitar a uma genealogia tradicional. É, sobretudo, uma forma de preservar acontecimentos e permitir que essas memórias atravessem gerações.
Para Franz, conhecer as próprias origens pode provocar descobertas que ultrapassam nomes e datas. Uma fotografia antiga, a história de um avô ou um episódio desconhecido pode despertar sentimentos e ajudar as novas gerações a compreenderem melhor de onde vieram. “Esse aí era meu avô. Essa é a fotografia do meu avô. Eu não imaginava”, exemplificou ao falar sobre o impacto dessas descobertas.
Em outra vertente está Regina Corazza Tiemann Scheffer. Professora e servidora pública municipal desde 2009, ela encontrou na escrita uma maneira de observar e compreender aquilo que acontece consigo e ao seu redor. Sua produção passa principalmente pela poesia, pelas crônicas e pelos textos reflexivos.
O livro “Devaneios de uma Gaveta” nasceu justamente desse olhar. A obra reúne vivências, encontros, pensamentos e observações acumulados ao longo dos anos. Nem tudo, ressalta Regina, é autobiográfico. Há textos construídos a partir daquilo que percebe nas outras pessoas e das questões que surgem da observação do comportamento humano.
“Todos nós temos histórias nas nossas gavetas e nem todas a gente gostaria ou compartilha”, explicou. Para ela, publicar também exige coragem, porque entregar um texto ao público significa aceitar que cada leitor poderá interpretá-lo a partir de sua própria história.
A obra possui ainda uma participação especialmente afetiva. O filho, Luiz Caetano, ajudou a pensar a concepção da capa e produziu desenhos utilizados no interior do livro. Antes da publicação, Regina manteve os textos restritos ao marido, ao filho e a poucas pessoas envolvidas no projeto. Somente quando a obra estava encaminhada decidiu revelar que havia escrito um livro.
“Escrever é uma forma de entender o que me passa e o que me atravessa”, definiu Regina. Sua literatura procura justamente interromper, ainda que por alguns instantes, a velocidade do cotidiano para provocar reflexão.
Cláudia Willrich Klein completa o grupo de escritores com uma produção especialmente ligada aos leitores mais jovens. Autora de obras voltadas ao público infantil, ela apresenta “O Graxaim, a Onça e a Estrela”, ampliando sua caminhada pela literatura destinada às novas gerações. Durante a conversa sobre os lançamentos, a obra foi apresentada como uma produção direcionada especialmente ao público infantojuvenil.
Embora sigam caminhos literários distintos, os três autores encontram um ponto comum: a preocupação com a leitura em uma época marcada pela rapidez da informação e pelo uso intenso das tecnologias.
Regina, que vivencia diariamente a educação, observa que as crianças continuam interessadas em histórias. “A leitura, a literatura, eles gostam, eles adoram escutar a história”, afirmou. Para a escritora, o desafio está em criar espaços para que crianças e adultos consigam parar, pensar e interpretar aquilo que vivenciam, em vez de apenas acompanhar o ritmo acelerado do cotidiano.
Eloi também vê na literatura uma possibilidade de aproximar gerações. Sua própria história demonstra como o incentivo recebido ainda na escola pode permanecer por toda uma vida. Professor, regente, pesquisador e escritor, ele chegou aos 79 anos ainda produzindo e reunindo histórias.
Regina, por sua vez, representa uma produção que começa a ganhar novos espaços, levando ao livro reflexões que antes permaneciam guardadas. Cláudia aproxima esse mesmo universo literário das crianças e dos jovens.
Mais do que três livros apresentados em um mesmo momento, as obras revelam diferentes maneiras de escrever a partir do lugar onde se vive. Uma recupera as raízes familiares; outra abre a gaveta das experiências e sentimentos; e a terceira utiliza a narrativa para conversar com as novas gerações. Juntas, mostram que a literatura produzida em Ibirubá continua encontrando autores dispostos a transformar memória, imaginação e experiência em histórias para serem compartilhadas.





















