De Ibirubá a Indianápolis: Guilherme realiza sonho de infância nas 500 Milhas
Três gerações ligadas por uma mesma lembrança. Só que, desta vez, o ronco dos motores não vinha da televisão.

“Quando o Caio foi para a liderança, o pessoal se manifesta”, contou Guilherme. Bandeiras, camisetas verde-amarelas e comemorações ajudavam os brasileiros a se encontrarem no meio da multidão.
Antes da largada, porém, ainda havia todo um espetáculo.
A execução do hino nacional norte-americano é acompanhada pela passagem de caças sobre o circuito. Depois vem outra cerimônia tradicional ligada ao estado de Indiana e uma nova passagem das aeronaves. Na sequência, chega uma das frases mais aguardadas do dia: a ordem para que os pilotos liguem os motores.
Nas voltas de apresentação, finalmente Guilherme sentiu aquilo que televisão nenhuma consegue reproduzir completamente: o ronco dos carros diante da arquibancada e toda a movimentação que antecede a largada.
“Tu começa a sentir realmente a emoção da corrida”, descreveu.
A família estava posicionada entre as curvas 3 e 4, em uma área elevada das arquibancadas, com visão panorâmica e telões para acompanhar os demais pontos da pista. Em determinado momento de bandeira vermelha, Elvis, Daiara e Vitor desceram e acabaram chegando a uma área muito próxima do circuito. Quando a bandeira verde voltou rapidamente, puderam sentir os carros passando a poucos metros, até que um fiscal determinou a saída do local. O registro em vídeo virou mais uma lembrança da viagem.
A concentração de centenas de milhares de pessoas também produziu uma situação curiosa: praticamente não havia internet móvel. Guilherme pretendia compartilhar vídeos durante o evento, mas as postagens tiveram de esperar. Somente posteriormente, já no hotel, conseguiu publicar parte dos registros.
Até a percepção do tempo mudou dentro do autódromo.
As quatro horas de espera antes da largada pareciam avançar lentamente. Depois da bandeira verde, tudo se acelerou junto com os carros.
“Daqui a pouco tu te dá conta: já foi 50, já foi 100, já foi 150, vai acabar. Nas últimas 30, 20 voltas, tu não quer que acabe nunca”, relatou.
A meteorologia quase transformou o sonho em frustração. A previsão apontava chuva para o horário da corrida e havia possibilidade de adiamento. A família percebeu, inclusive, uma falha no planejamento: o voo de retorno estava marcado de maneira que, caso a prova fosse transferida para segunda-feira, não seria possível permanecer para assisti-la.
A chuva chegou a ameaçar. Uma garoa provocou uma interrupção, mas a prova foi retomada. A precipitação mais forte apareceu somente depois do encerramento, obrigando a família a apressar a caminhada de volta ao carro. Guilherme reconhece que tiveram sorte: uma chuva intensa durante a disputa poderia provocar horas de paralisação.
Também houve investimento financeiro. Guilherme estimou que ingresso, alimentação e despesas relacionadas ao evento chegaram perto de R$ 2 mil por pessoa. A conversão do dólar pesa para o visitante brasileiro, embora ele considere os valores compatíveis com a dimensão de um grande evento esportivo.
Nem tudo pôde ser conhecido. O acesso a determinadas áreas internas exigia outro tipo de ingresso e o grupo não conseguiu visitar o museu do circuito, que reúne carros e parte da história de Indianápolis. Ficou como um motivo a mais para sonhar com uma segunda visita.
Aliás, antes mesmo de deixar o autódromo, Guilherme já fazia contas para saber se seria possível retornar no ano seguinte.
“Na verdade, a gente nem sabe se algum dia vai voltar. Essa é a verdade. Mas felizmente a gente conseguiu se programar esse ano e conseguimos estar lá.”
Muito além do apaixonado por automobilismo
A história de Guilherme Trein Peukert não se resume às pistas. Médico-veterinário, ele completa em agosto 20 anos de formado e seguiu uma profissão também exercida pelo pai. No início da carreira trabalhou com suínos, passando pela Cotribá e pela Alibem, atuando com manejo, fomento e clínica de rebanhos. Posteriormente direcionou sua atividade aos bovinos leiteiros e, nos últimos anos, especialmente à nutrição animal e representação de empresas parceiras.
Nos últimos anos, outra área também ganhou espaço em sua vida. Guilherme participou do Método CIS em 2023 e passou a incentivar outras pessoas próximas a conhecerem o treinamento. A experiência se conectou à atuação profissional da esposa Letícia e ao envolvimento da família com a Febracis. Durante a entrevista, ele revelou planos para participar de um investimento em uma nova sede da instituição em Passo Fundo, projeto que poderá ocupar parcela importante de sua atividade profissional nos próximos anos.
Também integra o Rotary, onde recentemente exerceu a função de tesoureiro. Guilherme relaciona a participação na entidade ao exercício do serviço comunitário, da amizade e do companheirismo.
Mas, entre tantas experiências pessoais e profissionais, Indianápolis conquistou um lugar particular.
Quando retornou para casa e começou a rever fotografias, vídeos e notícias, Guilherme conta que demorou alguns dias para se desligar emocionalmente da corrida. Era a dimensão do que havia acabado de realizar começando a ser compreendida.
Ele, que só fez sua primeira viagem em avião comercial aos 25 anos, hoje consegue proporcionar ao filho experiências internacionais ainda na infância. Vitor já conheceu Canadá e Estados Unidos e, aos oito anos, esteve ao lado do pai em um dos maiores eventos esportivos do mundo.
A próxima meta automobilística pode ser a Fórmula 1. Guilherme admite que assistir presencialmente a um Grande Prêmio também permanece entre seus sonhos e acredita que, quando transformar esse desejo em objetivo, poderá concretizá-lo.
Indianápolis, entretanto, terá sempre uma história impossível de repetir exatamente da mesma maneira.
Porque, quando Guilherme Trein Peukert olhou para o filho sentado ao seu lado naquela arquibancada, passado e presente se encontraram. De um lado estava Vitor, com oito anos, descobrindo ao vivo o espetáculo da velocidade. Do outro, estava um homem que por alguns instantes também voltou aos oito anos, às manhãs diante da televisão e às corridas assistidas junto de Jorge Peukert.
Três gerações ligadas por uma mesma lembrança. Só que, desta vez, o ronco dos motores não vinha da televisão.
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