21 de Agosto, 2026 10h08mEntrevista por ANDREI GRAVE

De Ibirubá a Indianápolis: Guilherme realiza sonho de infância nas 500 Milhas

Três gerações ligadas por uma mesma lembrança. Só que, desta vez, o ronco dos motores não vinha da televisão.

Apaixonado por automobilismo desde os oito anos, Guilherme Trein Peukert atravessou mais de três décadas de memórias até chegar ao templo da velocidade acompanhado do filho Vitor, justamente com a mesma idade que ele tinha quando tudo começou

Quando os carros começaram a contornar o Indianapolis Motor Speedway para as voltas de apresentação, Guilherme Trein Peukert finalmente ouviu ao vivo um som que fazia parte de sua vida havia mais de três décadas. O veterinário de Ibirubá, acostumado a madrugar diante da televisão para acompanhar Fórmula 1 e Indy, estava diante das 500 Milhas de Indianápolis. Mas havia algo ainda mais especial naquela arquibancada: ao seu lado estava o filho Vitor, de oito anos — a mesma idade que Guilherme tinha quando começou a assistir às corridas junto do pai, Jorge Peukert.

A paixão começou em 1988. Guilherme, nascido em Ibirubá em 1981, guarda daquele período as primeiras lembranças da Fórmula 1 e de Ayrton Senna, que conquistaria naquele ano seu primeiro título mundial. Um ano depois, Emerson Fittipaldi venceu pela primeira vez as 500 Milhas de Indianápolis e abriu para uma geração de brasileiros uma janela para o automobilismo norte-americano.

“Desde menino fui crescendo e acompanhando as corridas. Todos os anos, tendo disponibilidade, acabo acompanhando. É um hobby, é uma coisa que eu gosto desde criança”, conta Guilherme. Ayrton Senna tornou-se seu principal ídolo, seguido por Fittipaldi, sem deixar de reconhecer a importância de nomes como Nelson Piquet.

O interesse nunca diminuiu. Guilherme é daqueles torcedores que colocam o despertador para acompanhar uma prova do outro lado do planeta. “Levanto. Às vezes nem durmo, já fico acordado esperando o horário da corrida”, revelou. Curiosamente, apesar de acompanhar o esporte há mais de 30 anos, nunca havia conseguido assistir presencialmente a uma prova de Fórmula 1 ou da Indy.

A oportunidade começou a tomar forma longe das pistas. Há cerca de quatro anos, familiares passaram a morar em Windsor, no Canadá, junto à fronteira com Detroit. Guilherme, a esposa Letícia e Vitor começaram a viajar anualmente para visitá-los. Nos diferentes anos, aproveitaram para conhecer lugares como Quebec e Montreal, Chicago e Nova York. Até que surgiu a ideia: por que não transformar uma dessas viagens na oportunidade de conhecer Indianápolis?

Ingressos comprados e roteiro organizado, o sonho ganhou data.

A família partiu de Windsor de carro para uma viagem de aproximadamente 400 quilômetros. O percurso atravessou Michigan e Ohio até chegar a Indiana. Guilherme destacou também a experiência de dirigir pelas rodovias norte-americanas, especialmente pela infraestrutura e quantidade de pistas disponíveis nos principais trajetos.

A chegada mostrou rapidamente que as 500 Milhas não começam quando os carros recebem a bandeira verde.

No sábado, Indianápolis já respirava automobilismo. No centro da cidade ocorre o tradicional desfile dos pilotos, que passam individualmente em caminhonetes diante do público. Arquibancadas são montadas e a população participa de uma programação que leva a corrida para fora dos limites do autódromo.

Guilherme e a família também aproveitaram o sábado para fazer um reconhecimento dos arredores do Indianapolis Motor Speedway. Identificaram o portão pelo qual entrariam no dia seguinte, possíveis locais para estacionar e conheceram parte da gigantesca estrutura montada ao redor do circuito.

Motorhomes, trailers, ônibus e barracas formam praticamente outra cidade. Há espaços organizados para acampamento, energia, água e estacionamento. Para Guilherme, foi ali que começou a ficar clara a dimensão de um evento capaz de reunir cerca de 350 mil pessoas.

“O americano sabe fazer evento. Eles sabem como fazer um evento, sabem como se divertir num evento esportivo”, resumiu.

E nem todos estão ali exclusivamente para acompanhar cada uma das 200 voltas. No interior do circuito existe uma estrutura de entretenimento que inclui um grande palco de música eletrônica, reunindo milhares de pessoas enquanto a corrida acontece. Gastronomia, confraternizações e atividades espalhadas pelo complexo transformam o dia da Indy 500 em uma experiência muito maior que a competição esportiva.

No domingo, não havia espaço para dormir até mais tarde. Às 6h, uma alvorada com fogos já desperta os milhares de fãs instalados nos acampamentos. Por volta das 8h, Guilherme e a família estavam nas proximidades do circuito. Mesmo tendo planejado previamente onde deixar o veículo, ainda caminharam aproximadamente dois a 2,5 quilômetros até chegar ao autódromo.

Chegar cedo proporcionou algo que Guilherme não esperava.

As arquibancadas ainda estavam praticamente vazias. Restavam quatro ou cinco horas para a largada. Sentado naquele cenário que durante décadas existira apenas na televisão, ele começou a observar lentamente o circuito sendo tomado pelo público.

Foi quando apareceu o menino de 1988.

“Veio na minha mente um menino de sete, oito anos. Naquela época comecei a acompanhar Fórmula 1, Ayrton Senna, Emerson Fittipaldi. Me veio uma satisfação, uma felicidade muito grande de possibilitar que o Vitor, meu filho, com oito anos hoje, pudesse estar comigo nesse momento.”

Guilherme brinca que naquele dia havia “praticamente duas crianças de oito anos” na arquibancada.

Antes mesmo dos carros acelerarem, Indianápolis ainda lhe reservaria encontros com a história. No desfile realizado antes da prova, viu pessoalmente pilotos que conhecia desde a juventude, entre eles Mario Andretti e Rick Mears, além de Dario Franchitti e do brasileiro Tony Kanaan.

Outra curiosidade chamou sua atenção: conforme relatou na entrevista, aquela foi a primeira edição em cerca de 70 anos sem representantes das tradicionais famílias Andretti, Unser ou Foyt no grid, três dinastias profundamente ligadas à história do automobilismo norte-americano.

Na pista, o Brasil tinha motivos especiais para ser acompanhado.

Hélio Castroneves completava sua 25ª participação nas 500 Milhas. Quatro vezes vencedor — 2001, 2002, 2009 e 2021 —, integra o seleto grupo de recordistas de vitórias na prova. Para alguém que acompanhou boa parte dessa trajetória pela televisão, vê-lo correr em Indianápolis tornou-se outro momento especial para Guilherme.

O segundo brasileiro era Caio Collet, estreante na prova. Em determinado momento, uma estratégia diferente de paradas nos boxes colocou o piloto na liderança por algumas voltas.

Foi quando a presença brasileira nas arquibancadas ficou evidente.

“Quando o Caio foi para a liderança, o pessoal se manifesta”, contou Guilherme. Bandeiras, camisetas verde-amarelas e comemorações ajudavam os brasileiros a se encontrarem no meio da multidão.

Antes da largada, porém, ainda havia todo um espetáculo.

A execução do hino nacional norte-americano é acompanhada pela passagem de caças sobre o circuito. Depois vem outra cerimônia tradicional ligada ao estado de Indiana e uma nova passagem das aeronaves. Na sequência, chega uma das frases mais aguardadas do dia: a ordem para que os pilotos liguem os motores.

Nas voltas de apresentação, finalmente Guilherme sentiu aquilo que televisão nenhuma consegue reproduzir completamente: o ronco dos carros diante da arquibancada e toda a movimentação que antecede a largada.

“Tu começa a sentir realmente a emoção da corrida”, descreveu.

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A família estava posicionada entre as curvas 3 e 4, em uma área elevada das arquibancadas, com visão panorâmica e telões para acompanhar os demais pontos da pista. Em determinado momento de bandeira vermelha, Elvis, Daiara e Vitor desceram e acabaram chegando a uma área muito próxima do circuito. Quando a bandeira verde voltou rapidamente, puderam sentir os carros passando a poucos metros, até que um fiscal determinou a saída do local. O registro em vídeo virou mais uma lembrança da viagem.

A concentração de centenas de milhares de pessoas também produziu uma situação curiosa: praticamente não havia internet móvel. Guilherme pretendia compartilhar vídeos durante o evento, mas as postagens tiveram de esperar. Somente posteriormente, já no hotel, conseguiu publicar parte dos registros.

Até a percepção do tempo mudou dentro do autódromo.

As quatro horas de espera antes da largada pareciam avançar lentamente. Depois da bandeira verde, tudo se acelerou junto com os carros.

“Daqui a pouco tu te dá conta: já foi 50, já foi 100, já foi 150, vai acabar. Nas últimas 30, 20 voltas, tu não quer que acabe nunca”, relatou.

A meteorologia quase transformou o sonho em frustração. A previsão apontava chuva para o horário da corrida e havia possibilidade de adiamento. A família percebeu, inclusive, uma falha no planejamento: o voo de retorno estava marcado de maneira que, caso a prova fosse transferida para segunda-feira, não seria possível permanecer para assisti-la.

A chuva chegou a ameaçar. Uma garoa provocou uma interrupção, mas a prova foi retomada. A precipitação mais forte apareceu somente depois do encerramento, obrigando a família a apressar a caminhada de volta ao carro. Guilherme reconhece que tiveram sorte: uma chuva intensa durante a disputa poderia provocar horas de paralisação.

Também houve investimento financeiro. Guilherme estimou que ingresso, alimentação e despesas relacionadas ao evento chegaram perto de R$ 2 mil por pessoa. A conversão do dólar pesa para o visitante brasileiro, embora ele considere os valores compatíveis com a dimensão de um grande evento esportivo.

Nem tudo pôde ser conhecido. O acesso a determinadas áreas internas exigia outro tipo de ingresso e o grupo não conseguiu visitar o museu do circuito, que reúne carros e parte da história de Indianápolis. Ficou como um motivo a mais para sonhar com uma segunda visita.

Aliás, antes mesmo de deixar o autódromo, Guilherme já fazia contas para saber se seria possível retornar no ano seguinte.

“Na verdade, a gente nem sabe se algum dia vai voltar. Essa é a verdade. Mas felizmente a gente conseguiu se programar esse ano e conseguimos estar lá.”

Muito além do apaixonado por automobilismo

A história de Guilherme Trein Peukert não se resume às pistas. Médico-veterinário, ele completa em agosto 20 anos de formado e seguiu uma profissão também exercida pelo pai. No início da carreira trabalhou com suínos, passando pela Cotribá e pela Alibem, atuando com manejo, fomento e clínica de rebanhos. Posteriormente direcionou sua atividade aos bovinos leiteiros e, nos últimos anos, especialmente à nutrição animal e representação de empresas parceiras.

Nos últimos anos, outra área também ganhou espaço em sua vida. Guilherme participou do Método CIS em 2023 e passou a incentivar outras pessoas próximas a conhecerem o treinamento. A experiência se conectou à atuação profissional da esposa Letícia e ao envolvimento da família com a Febracis. Durante a entrevista, ele revelou planos para participar de um investimento em uma nova sede da instituição em Passo Fundo, projeto que poderá ocupar parcela importante de sua atividade profissional nos próximos anos. 

Também integra o Rotary, onde recentemente exerceu a função de tesoureiro. Guilherme relaciona a participação na entidade ao exercício do serviço comunitário, da amizade e do companheirismo.

Mas, entre tantas experiências pessoais e profissionais, Indianápolis conquistou um lugar particular.

Quando retornou para casa e começou a rever fotografias, vídeos e notícias, Guilherme conta que demorou alguns dias para se desligar emocionalmente da corrida. Era a dimensão do que havia acabado de realizar começando a ser compreendida.

Ele, que só fez sua primeira viagem em avião comercial aos 25 anos, hoje consegue proporcionar ao filho experiências internacionais ainda na infância. Vitor já conheceu Canadá e Estados Unidos e, aos oito anos, esteve ao lado do pai em um dos maiores eventos esportivos do mundo.

A próxima meta automobilística pode ser a Fórmula 1. Guilherme admite que assistir presencialmente a um Grande Prêmio também permanece entre seus sonhos e acredita que, quando transformar esse desejo em objetivo, poderá concretizá-lo.

Indianápolis, entretanto, terá sempre uma história impossível de repetir exatamente da mesma maneira.

Porque, quando Guilherme Trein Peukert olhou para o filho sentado ao seu lado naquela arquibancada, passado e presente se encontraram. De um lado estava Vitor, com oito anos, descobrindo ao vivo o espetáculo da velocidade. Do outro, estava um homem que por alguns instantes também voltou aos oito anos, às manhãs diante da televisão e às corridas assistidas junto de Jorge Peukert.

Três gerações ligadas por uma mesma lembrança. Só que, desta vez, o ronco dos motores não vinha da televisão.

 
 
 

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