21 de Agosto, 2026 09h08mMOMENTO ESTRELA GUIA por REDAÇÃO INTEGRADA

Do trabalho na lavoura às joias e à terapia: a trajetória de Lúcia Konrad

Empresária de Ibirubá relembra a infância no interior, quase quatro décadas no comércio, a viuvez, um assalto à mão armada e a busca pelo autoconhecimento que a levou também à atuação como terapeuta holística

Uma história construída entre a lavoura, a família, o balcão de uma joalheria e uma permanente busca por conhecimento. Foi esse percurso que Lúcia Konrad compartilhou durante entrevista concedida a Nilve Maldaner Mendes no Momento Estrela Guia, da Rádio Cidade 104.9. Empresária do ramo de joias e ouro e também terapeuta holística, ela revisitou diferentes fases da vida para mostrar como trabalho, perdas, recomeços, fé e relações familiares acabaram se encontrando em uma mesma trajetória.

A conversa ganhou um caráter especialmente pessoal pela amizade construída ao longo dos anos entre entrevistadora e entrevistada. Nilve recordou momentos em que as duas estiveram lado a lado diante de dificuldades, assim como períodos de celebração. Lúcia também destacou essa relação, lembrando que, em momentos delicados, encontrou apoio na amiga e em sua família. Mais do que uma entrevista sobre atividade profissional, o programa acabou percorrendo as experiências que ajudaram a formar a mulher, mãe, avó, empresária e terapeuta.

A menina que aprendeu cedo a trabalhar

Lúcia nasceu no interior, na região de Vila Seca, e é a filha mais velha de uma família de nove irmãos. Filha de Germano Konrad e Lucinda, cresceu em uma realidade em que o trabalho começava cedo e as responsabilidades eram divididas entre todos. Como primogênita, ajudou nos cuidados com os irmãos e acompanhou o pai nas atividades da propriedade rural.

As lembranças incluem serviços na lavoura, trabalho com carpideira, tarefas domésticas e uma rotina muito diferente daquela vivenciada atualmente pelas crianças. Segundo Lúcia, a própria mãe costumava dizer que ela trabalhava desde os quatro anos. Ao olhar para trás, porém, ela afirma enxergar aquele período também como uma escola para a vida.

A família aparece repetidamente em seu relato como um dos principais pilares dessa formação. Mesmo diante das dificuldades financeiras e do trabalho pesado, Lúcia descreve uma casa marcada pela união. O exemplo dos pais, especialmente na valorização da palavra dada, do respeito às pessoas e da disposição para trabalhar, seria levado mais tarde para sua vida empresarial.

Ainda adolescente, casou-se com Renato Mate e continuou trabalhando no meio rural. Até aproximadamente os 25 anos, a lavoura permaneceu presente em seu cotidiano. Quando os filhos Márcio e Cláudia passaram a necessitar de uma estrutura maior para os estudos, a família decidiu mudar-se para Ibirubá.

O comércio se transforma em profissão

Na cidade, uma característica que já aparecia desde a infância começou a ganhar espaço: o gosto pelas vendas. Antes de chegar definitivamente às joias, Lúcia passou por diferentes atividades. Fez trabalhos de bordado, ensinou outras pessoas e comercializou produtos. Aos poucos, vieram as semijoias, a prata e, posteriormente, o ouro.

A atividade transformou-se em uma trajetória empresarial de décadas. Lúcia conta que registrou sua empresa em 1989 e soma cerca de 37 anos ligados ao comércio de joias. Nesse período, construiu uma carteira de clientes que atravessou gerações e também participou da formação profissional de diversas jovens. Segundo ela, mais de 15 mulheres passaram pelo estabelecimento e receberam seus ensinamentos.

Um dos princípios que diz ter preservado desde o começo é a relação de confiança com o cliente. Para Lúcia, uma venda não termina quando o produto sai da loja. Resolver eventuais problemas e preservar o relacionamento sempre esteve acima de uma negociação isolada. “Eu nunca tive uma briga com cliente”, resumiu ao recordar sua caminhada no comércio.

Essa credibilidade, afirma, também se reflete na relação mantida com fornecedores. Hoje, trabalha com peças vindas de diferentes regiões do país e atribui essa confiança ao nome construído ao longo de décadas. A referência vem novamente da educação recebida do pai, que ensinava aos filhos a importância de honrar compromissos e manter a palavra.

Perdas e a decisão de começar novamente

A caminhada, entretanto, esteve longe de ser linear. Em 2010, Lúcia ficou viúva. Naquele momento, preparava-se para diminuir sua atuação profissional e dedicar mais tempo ao marido. A morte mudou completamente os planos.

Diante da perda, precisou reorganizar a própria vida e encontrou novamente no trabalho uma forma de seguir adiante. Retomou a atividade comercial e reabriu caminhos que imaginava estar encerrando.

Outro episódio marcante ocorreu durante um assalto à mão armada dentro da loja. Lúcia relatou ter permanecido sob a mira de uma arma e descreveu a experiência como um momento em que percebeu o valor fundamental de permanecer viva. Em meio à abordagem, contou ter olhado para o assaltante e perguntado: “Mas você também é filho de Deus?”. Depois do episódio, apesar dos prejuízos materiais e do impacto emocional, decidiu continuar.

Em determinado momento, vendeu o espaço da antiga Cláudia Joias, mas manteve consigo o nome empresarial e o CNPJ. Anos depois, retornaria novamente ao comércio físico. Atualmente, está à frente da LK Joias Finas, no centro de Ibirubá, trabalhando com ouro, prata, semijoias, plaquê e outros produtos. Também atua com reformas e recuperação de peças, inclusive reaproveitando ouro usado na confecção de novas joias.

Uma nova busca começa pela própria experiência

Paralelamente à atividade empresarial, outra trajetória começou a tomar forma. Lúcia contou que, por volta de 1990, enfrentava dores e problemas de saúde e recebeu uma avaliação médica que a deixou preocupada com seu futuro. A experiência despertou nela uma busca por diferentes filosofias e práticas voltadas ao autoconhecimento.

Primeiro vieram estudos relacionados à espiritualidade e, depois, uma sequência de formações. Durante a entrevista, ela citou estudos em filosofia, renascimento, constelação familiar, reiki e práticas que denomina cura quântica. Essa busca, segundo sua própria interpretação, teve inicialmente um objetivo pessoal: compreender melhor o que estava vivendo. Posteriormente, passou a utilizar esse conhecimento no atendimento a outras pessoas.

Em 2011, após a viuvez, viveu outra experiência importante ao passar cerca de 30 dias em um centro de yoga em Santa Catarina para realizar uma formação como professora. Lúcia recorda que chegou ao local ainda profundamente abalada pela perda do marido. O período de isolamento, estudo e disciplina foi descrito por ela como um processo difícil, mas decisivo para mudar a maneira como enxergava a própria história.

Hoje, apresenta-se como terapeuta holística e afirma continuar estudando. Já realizou atendimentos em diferentes cidades e diz que sua atuação está baseada principalmente na escuta, no acolhimento e na busca pelo autoconhecimento. Ao mesmo tempo, mantém o comércio como sua principal atividade profissional cotidiana.

As afirmações feitas durante a entrevista sobre doenças, cura, poder da mente, terapias holísticas e produtos naturais refletem as experiências e crenças pessoais relatadas por Lúcia e não substituem diagnóstico, acompanhamento ou tratamento médico.

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Joias e terapia se encontram no mesmo balcão

Embora possam parecer atividades distantes, Lúcia considera que o comércio e a terapia acabaram se aproximando naturalmente. Depois de tantos anos atendendo pessoas, o balcão da loja também se tornou espaço de conversa. Há clientes que chegam para procurar uma joia e acabam compartilhando dificuldades, histórias familiares ou momentos pessoais.

“Eu amo fazer esse meu trabalho, mas eu também adoro ajudar as pessoas e servir pessoas”, afirmou.

Essa combinação ajuda a explicar por que, mesmo depois de tantas décadas de atividade, ela decidiu voltar a ter uma loja. Com os filhos adultos e os netos crescendo, poderia ter escolhido diminuir o ritmo. Preferiu recomeçar. Para Lúcia, trabalhar continua associado à sensação de utilidade e independência.

Na LK Joias Finas, essa história aparece também nos serviços tradicionais ligados ao ouro e à prata. Peças antigas podem ser recuperadas, joias podem ser refeitas e objetos que carregam memória familiar ganham nova vida. Durante a entrevista, uma bomba de chimarrão pertencente à mãe de Nilve serviu como exemplo dessa relação entre objeto, memória e afeto: mesmo bastante desgastada, a peça foi restaurada e preservada como lembrança familiar.

A própria Lúcia guarda uma relação semelhante com o chimarrão. Ela contou que, ainda no interior, comprou sua primeira bomba com o dinheiro obtido pela venda de pequenas quantidades de leite e nata. Décadas depois, bombas, cuias e peças de prata fazem parte também de sua atividade comercial.

O patrimônio que não cabe em uma vitrine

Apesar de passar grande parte da vida profissional cercada por ouro e joias, Lúcia deixou claro durante a conversa que considera outro patrimônio mais importante: a família.

Os filhos Márcio e Cláudia e os cinco netos aparecem em sua fala como continuidade de uma história iniciada muito antes, ainda na propriedade dos pais. Ao recordar Germano e Lucinda e a convivência com os oito irmãos, ela destacou valores como trabalho, união, simplicidade e acolhimento.

Uma das lembranças mais fortes é a mesa da família. Segundo Lúcia, o pai não admitia distinção entre empregados e familiares na hora das refeições. Todos se sentavam juntos. A atitude ficou guardada como uma lição de respeito às pessoas, independentemente de origem ou condição social.

Também ficaram na memória os momentos de chimarrão, as visitas dos vizinhos, as tarefas divididas entre os irmãos e uma época em que o convívio familiar ocupava um espaço que hoje muitas vezes é preenchido pelas telas. Na avaliação de Lúcia, ensinar responsabilidades aos filhos e oferecer exemplos dentro de casa continua sendo uma das funções fundamentais da família.

É dessa infância, marcada ao mesmo tempo pela dureza do trabalho e pela presença familiar, que ela diz ter retirado boa parte dos princípios utilizados posteriormente no comércio e na vida.

“Nunca desistir de nada”

Ao final do Momento Estrela Guia, depois de percorrer décadas de lembranças, Lúcia condensou sua mensagem em poucas ideias: fé, perseverança e disposição para pedir ajuda quando as dificuldades parecerem maiores do que a capacidade de enfrentá-las sozinho.

“Nunca desistir de nada e buscar ajuda”, afirmou. Para ela, esse apoio pode ser encontrado na família, entre amigos, em uma comunidade religiosa ou simplesmente em alguém disposto a ouvir.

A frase resume uma trajetória marcada por sucessivos recomeços. Da menina que trabalhava na lavoura à jovem que se casou aos 17 anos; da mãe que mudou para Ibirubá pensando no futuro dos filhos à comerciante que construiu décadas de relacionamento com clientes; da mulher que enfrentou a viuvez e um assalto à empresária que decidiu abrir novamente uma loja; e da busca pessoal por respostas à formação como terapeuta holística.

No centro dessa história permanece uma ideia repetida por Lúcia ao longo da entrevista: conquistas materiais têm importância, mas são as relações construídas, a família, os amigos e a maneira como se atravessam as dificuldades que acabam formando o verdadeiro legado de uma vida.

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