
Cézar Ruppenthal, conhecido como Pacato, vive com uma condição rara de pele chamada ictiose lamelar. Morador de Quinze de Novembro, ele transforma desafios em motivação e inspira com sua história de superação, música e bom humor.
Pouca gente sabe o que é viver com a pele trocando constantemente. Menos ainda imaginam o que é nascer com uma condição genética que te acompanha da cabeça aos pés, desde o primeiro choro fora do útero. Mas Cezar Augusto Schmidt Ruppenthal, ou melhor, o “Pacato” — como todos o conhecem, sabe bem o que isso significa. E ele fez disso a sua força.
“Quando nasci, já me levaram direto pra Santa Maria. Fiquei 45 dias lá, sem visita. Já sabiam que tinha algo diferente”, lembra ele, com aquela voz tranquila de quem aprendeu a rir antes de reclamar.
O nome do que ele tem é difícil: ictiose lamelar. Mais difícil ainda é encontrar alguém com o mesmo diagnóstico. “Na época que fiz o tratamento em São Paulo, eram 12 casos registrados no mundo todo. Doze!”, conta, como quem ainda se surpreende.
A condição faz com que a pele não se renove da forma correta, criando uma espécie de “cascão”, uma camada espessa e visível. Isso traz limitações: Cézar não sua, sente o calor preso no corpo, e a pele exige cuidados extremos. Já teve problemas sérios nos olhos e convive com o medo constante de reações mais graves. Mas se tem algo que ele não faz é usar isso como muleta.
“Pra mim, sempre foi normal. Eu estudava, trabalhava, saía, conhecia gente. O problema era a pele, só isso. O resto eu fazia igual a todo mundo.”
Aos 22 anos, teve a chance que mudou tudo. Com a ajuda de um radialista que acreditou na sua história, Cézar conseguiu ir a São Paulo, apareceu num programa de TV, conseguiu hospedagem, medicação, tratamento completo — tudo na parceria, na raça. "Me mandaram pra um hotel, o médico vinha até mim. A dose da medicação começou em 92% de ureia, que ardia que só, e foi baixando. Aguentei firme."
Hoje, Cézar toma um remédio caro (a acitretina), que o SUS fornece todo mês.
“Se fosse comprar, era mais de R$ 2.300 por mês. Ainda bem que o posto me entrega sempre certinho.”
Mas a história do Pacato não é sobre uma doença rara. É sobre tudo que ele construiu apesar dela.
Empresário, animador, figura conhecida por todo o interior, ele é o dono do grupo Arrastapé, banda que percorre o Rio Grande e Santa Catarina levando alegria em forma de música. “Comecei ajudando os primos, carregando equipamento. Hoje sou eu que negocio os bailes. Temos um trio: teclado, sopro e vocal. É sucesso.”
E não é pouca coisa: de bailes comunitários a festas de cidade, de jantares dançantes a grandes palcos. E se o som é bom, melhor ainda é o carinho que Pacato recebe por onde passa. Em Quinze de Novembro, todo mundo conhece o Pacato. "Esses dias, uma criança me viu no posto e disse: 'olha ali o Pacato!', e eu nem conhecia a mãe dela. É carinho de verdade.
Cézar também já tentou a política. Foi candidato a vereador. Não se elegeu, mas garante que a ideia era ajudar as comunidades, levar voz pra quem precisa. “Não gastei nada. Só fui nos comícios. Mas tá tudo certo. Continuo ajudando do meu jeito.”
Entre uma viagem e outra, ele ainda encontra tempo pra viver bem com a companheira, com quem mora há mais de 3 anos. “Casado no papel não, mas junto de verdade.” E sobre ter filhos, ele é honesto: “Tenho medo da doença ser passada. Não sei se quero arriscar. Mas ser pai pode ser de outros jeitos também, né?”
Aos 45 anos, Cézar segue firme. Já conheceu quase todo o Rio Grande do Sul, viajou de avião, foi ao Espírito Santo, quer ainda conhecer o Rio de Janeiro. E não perde o bom humor.
“A gente reclama por tão pouco. Eu tenho uma doença rara, mas tenho mais ainda: alegria, trabalho, amigos, e essa vida aí que não para nunca.”
Quem convive com ele entende rápido: o Pacato pode até ter nascido com uma pele rara. Mas o coração dele é daqueles que arrasta qualquer um — seja pro baile, pra vida ou pra reflexão.




















