18 de Agosto, 2026 09h08mEntrevistas por JORNALISTA CRISTIANO LOPES

Estudar, conhecer, amadurecer: o que um intercâmbio pode proporcionar

Quando ainda era criança, Ana Springer já repetia em casa que um dia estudaria fora do Brasil.

 

Aos 20 anos, acadêmica de Direito Ana Springer realizou intercâmbio na Universidade de Coimbra, em Portugal, e transformou um desejo de infância em uma experiência de formação acadêmica, cultural e pessoal

 O desejo acompanhou a estudante durante a adolescência, influenciou suas escolhas acadêmicas e, aos 20 anos, transformou-se em realidade. Acadêmica de Direito da Unicruz, ela passou seis meses em Portugal, estudando na Universidade de Coimbra. O período trouxe conhecimento jurídico, viagens e novas amizades, mas também colocou Ana diante da solidão, da saudade e, logo nas primeiras semanas, da vontade de desistir e voltar para casa.

Nascida em Panambi e criada em Ibirubá, Ana estudou durante toda a vida em escola pública e fez o ensino técnico no Instituto Federal. Ao ingressar no ensino superior, em 2024, já tinha claro que queria buscar uma experiência internacional. “Quando eu passei para a universidade, eu já sabia que queria fazer um intercâmbio. Desde muito novinha eu sempre falei que queria estudar fora ou ir para fora, para longe, para ter essa experiência”, conta.

Na Unicruz, descobriu o programa de mobilidade acadêmica, mas havia uma exigência: precisava ter concluído pelo menos 30% do curso para participar. Ana esperou até alcançar o requisito e se inscreveu no edital que possibilitava estudar na Universidade de Coimbra. A primeira resposta, porém, foi negativa. Havia poucas vagas e ela ficou em terceiro lugar no processo de seleção.

Foi um golpe para quem alimentava aquele projeto havia tantos anos. Em casa, a mãe, Verônica Springer, acompanhava a frustração. Professora, ela sabia o tamanho daquele sonho. Quando Ana não foi selecionada inicialmente, Verônica conta que buscou forças na fé. Pouco depois, a Unicruz atualizou as vagas disponíveis junto à universidade portuguesa e surgiu uma nova oportunidade. Ana recebeu a informação de que poderia embarcar para Coimbra.

A conquista da vaga, entretanto, era apenas o começo. Era preciso providenciar passaporte, visto de estudante, passagem aérea, seguro e uma série de documentos dentro de um período relativamente curto. O resultado saiu em outubro e a viagem estava prevista para o final de janeiro.

O passaporte, aliás, havia sido um pedido incomum de aniversário. “Eu não sabia como pedir isso para o pai e para a mãe. Um dia, no almoço, pedi para o pai se ele me dava o meu passaporte de presente de aniversário de 20 anos”, recorda Ana. Para participar do edital, ela já precisava apresentar pelo menos o comprovante de encaminhamento do documento.

Segurança para enfrentar a primeira viagem internacional

A família não tinha experiência com viagens internacionais. Além da emoção pela conquista, havia uma série de dúvidas práticas sobre como organizar a ida de uma jovem de 20 anos que permaneceria seis meses longe de casa.

“A gente nunca tinha comprado uma passagem de avião. Não se sentia muito seguro de fazer isso sozinho”, relata Ana. Foi nesse momento que a família chegou até Deise Aline Bellini, da Giru's pelo Mundo. A empresa auxiliou na compra das passagens, na contratação do seguro e nas dúvidas que surgiram durante a preparação. “A Deise passou muita confiança para a gente, com o jeito muito verdadeiro dela de ser. A mãe também sentiu muita confiança e a gente fechou a passagem e o seguro saúde”, conta.

Deise explica que uma viagem de seis meses exige cuidados diferentes de uma viagem convencional de turismo. Na escolha dos voos, por exemplo, é necessário observar conexões, intervalos entre embarques e o que fazer diante de eventuais atrasos. O seguro também precisa ser adequado ao período e ao objetivo da permanência no exterior.

“Não é simplesmente escolher a passagem mais barata ou a mais cara. É avaliar num todo quanto tempo ela vai ter de conexão, o tempo de voo e o que fazer se um voo atrasar e ela perder a conexão”, explica Deise.

No caso de Ana, o seguro era também uma exigência para a permanência no país. Deise destaca que esse tipo de proteção não envolve somente atendimento médico, podendo abranger situações relacionadas a bagagem, alterações de viagem e outras ocorrências. “Ela estar em outro país e ter um suporte principalmente para a saúde é algo inegociável”, afirma.

Durante os seis meses em Portugal, a estudante também permaneceu com um canal de suporte da Giru's pelo Mundo disponível caso surgisse algum problema. Ana não precisou utilizá-lo para uma situação grave, embora tenha enfrentado um atraso na viagem de retorno que fez com que sua chegada ocorresse por Caxias do Sul, em vez de Porto Alegre.

Para Verônica, contar com orientação profissional ajudou a diminuir uma preocupação inevitável para uma mãe que veria a filha partir sozinha para outro continente. “O mais difícil foi o dia que ela embarcou, 29 de janeiro. Eu queria chorar na frente dela, mas pensava: vai, filha, é teu sonho”, recorda.

Um sonho que também exigiu planejamento da família

A realização do intercâmbio demandou organização financeira. Verônica e o marido, Ciro Springer, já mantinham uma reserva e decidiram que fariam o possível para proporcionar a experiência à filha.

“Eu sempre disse: o que nós tivermos que fazer para te ajudar, nós vamos fazer”, conta Verônica. Passagens e seguro puderam ser parcelados, enquanto a família precisou organizar os valores para moradia e manutenção durante os seis meses. Ana estima que recebia em torno de 700 a 800 euros em alguns meses para as despesas.

Para a família, aquele investimento representava muito mais do que financiar uma viagem. Era a possibilidade de permitir que a filha concretizasse um projeto que vinha sendo construído desde a infância.

Verônica lembra que Ana já falava sobre estudar fora quando tinha cerca de quatro anos. “A gente sabia que era o sonho dela. Então sempre incentivou”, afirma.

Quando o sonho encontrou a realidade

Embarcar era o sonho. Permanecer se mostrou um desafio muito maior.

Quando Ana chegou a Portugal, encontrou o país após um período de fortes tempestades. Chovia constantemente e, embora tivesse viajado antecipadamente acreditando que as aulas começariam em determinada data, o início das atividades ocorreu mais tarde. Foram aproximadamente duas semanas com pouca coisa para fazer, longe da família e tentando compreender a nova realidade.

Foi quando surgiu uma mensagem para Deise: Ana queria saber quanto custaria mudar a passagem para voltar ao Brasil dali a uma semana.

“Foi um início bem difícil, bem complicado”, reconhece Ana.

Aquele momento mostrou que a preparação de um intercâmbio não termina no aeroporto. A rede familiar tornou-se fundamental. Verônica mobilizou padrinhos, familiares e amigos para conversar com a filha e incentivá-la a permanecer em Portugal.

Ana reconhece que aquela sustentação emocional foi decisiva para não desistir. “Eu tive um apoio muito grande, toda a minha base, toda a minha família, todos os meus amigos. Eu sou muito grata a isso. Principalmente por causa deles deu tudo certo.”

Superada a fase inicial, o que parecia assustador começou a se transformar na experiência que ela havia imaginado durante tantos anos.

Uma casa onde cabia um pouco do mundo

Ana morava em uma casa de estudantes a aproximadamente cinco minutos da universidade. Dividia o espaço com jovens de diferentes nacionalidades: italianos, franceses, indianos, paquistaneses, britânicos, brasileiros e, posteriormente, um japonês.

Alguns daqueles colegas se tornaram amizades que ela pretende levar para a vida. A própria diversidade da casa acabou sendo uma extensão da experiência internacional: além de estudar em outro país, Ana passou a conviver diariamente com pessoas de diferentes culturas.

A rotina também exigiu independência. Ao desembarcar, precisou aprender a utilizar metrô e ônibus e seguir sozinha até Coimbra. Depois vieram as pequenas e grandes burocracias de viver em outro país.

Para ter acesso ao transporte público gratuito destinado a jovens com menos de 23 anos, por exemplo, precisou providenciar o NIF, número de identificação fiscal português. “A universidade cuida das coisas da universidade, mas, de resto, é tu por ti”, resume.

Essa autonomia talvez tenha sido uma das partes mais importantes da experiência. Aos poucos, aquela jovem que nas primeiras semanas pensou em antecipar a passagem começou a resolver sozinha problemas que até então nunca precisara enfrentar.

Direito sob uma perspectiva internacional

Na Universidade de Coimbra, Ana decidiu aproveitar a oportunidade para estudar áreas que dificilmente vivenciaria da mesma maneira no Brasil. Escolheu disciplinas voltadas especialmente ao Direito Internacional, entre elas Direito Internacional Público e Direitos Humanos, Processo Civil Internacional, Conflito de Leis e Cooperação Internacional em matéria penal.

“Eu resolvi focar mais nos direitos internacionais”, explica. A formação permitiu contato mais aprofundado com o Direito da União Europeia, direitos humanos, documentos das Nações Unidas e outros temas ligados às relações jurídicas entre diferentes países.

Para Ana, o Direito continua sendo uma formação que ultrapassa a futura profissão. “É uma faculdade que todo mundo deveria fazer. A gente aprende coisas básicas que todo mundo deveria saber”, avalia.

Mas o aprendizado acadêmico foi apenas uma parte daqueles seis meses.

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Coimbra e uma vida construída ao redor da universidade

Ana encontrou em Coimbra uma cidade profundamente ligada à vida universitária. A Universidade de Coimbra, uma das mais antigas da Europa, atrai estudantes de diferentes partes do continente e do mundo, fazendo com que a população e a própria dinâmica da cidade se modifiquem ao longo do calendário acadêmico.

“A experiência como um todo foi muito transformadora. Eu aprendi muito sobre mim e sobre o país em que estava”, afirma.

Ana se apaixonou por Coimbra. A presença constante de intercambistas fazia com que, brinca, “a cada semestre mudasse o elenco da série”. Ao mesmo tempo, essa característica fez com que percebesse que, apesar do encantamento, não gostaria necessariamente de construir sua vida definitiva ali.

A estudante também decidiu viver as tradições universitárias portuguesas. Uma das experiências mais marcantes foi a Queima das Fitas, tradicional celebração acadêmica realizada ao final do ano letivo, com cortejos e intensa participação dos estudantes.

Para Ana, aproveitar esses momentos também fazia parte da formação. “O intercâmbio é sobre viver as experiências e as tradições de lá. Se eu não tivesse vivido as tradições de Coimbra, eu não teria me apaixonado tanto pela cidade”, conta.

Da neve à realização do sonho de conhecer Paris

Estar na Europa abriu ainda a possibilidade de conhecer outros países e culturas. Logo no começo da experiência, Ana foi até a Serra da Estrela, em Portugal, onde viu neve pela primeira vez.

Nas férias de Páscoa, viajou com amigas para Dublin, na Irlanda; Belfast, na Irlanda do Norte; Edimburgo, na Escócia; e Londres, na Inglaterra. Depois vieram Salamanca, na Espanha, Paris e a Itália.

Paris ocupava um lugar especial entre seus desejos. “Era o meu sonho. Queria muito ter ido para Paris. Eu sou muito feliz e muito grata por ter ido”, afirma.

As viagens complementaram aquilo que acontecia dentro da universidade. Em seis meses, Ana não conheceu somente novas legislações ou métodos de ensino. Precisou lidar com idiomas, costumes, transportes, dinheiro, documentação, diferenças culturais e pessoas que carregavam histórias completamente diferentes da sua.

Foi preciso sair para descobrir que queria voltar

Curiosamente, realizar o antigo sonho de morar fora também trouxe uma descoberta inesperada.

Ana passou boa parte da vida imaginando a possibilidade de construir seu futuro em outro país. Depois de seis meses em Portugal, retornou com uma percepção diferente.

“Eu sempre quis morar fora, então me sinto muito realizada por ter conseguido fazer isso em seis meses, mas acho que o meu lugar é o Brasil”, afirma.

Isso não significa abandonar as experiências internacionais. Ana considera a possibilidade de futuramente realizar um mestrado ou outra etapa da formação acadêmica no exterior. A diferença é que agora consegue separar o desejo de conhecer o mundo da ideia de necessariamente deixar o Brasil definitivamente.

Suporte para quem decide atravessar fronteiras

Deise Aline Bellini explica que intercâmbios acadêmicos como o realizado por Ana não são o foco principal da Giru's pelo Mundo, mas fazem parte das situações em que a empresa pode auxiliar o viajante com organização, passagens, seguros e orientações.

A experiência de Ana, segundo ela, mostra a diferença entre simplesmente comprar uma passagem e preparar uma permanência prolongada em outro país. “Muito mais do que só vender, a gente se preocupa com o passageiro que está no destino”, destaca.

A própria Deise já viveu uma experiência de intercâmbio no Canadá e conta que isso ajudou na aproximação com Ana durante os preparativos. Além das questões técnicas, havia a necessidade de transmitir segurança para uma estudante que faria sua primeira grande experiência longe de casa.

Verônica também destaca esse acompanhamento. Para ela, ter alguém a quem recorrer diante das dúvidas sobre seguro, passagem e viagem tornou o processo menos angustiante. A mãe acompanhou a filha à distância durante todo o período, mantendo contato frequente enquanto Ana construía sua própria rotina do outro lado do Atlântico.

“Eu achava que era impossível”

Depois de seis meses, a jovem que chegou a perguntar quanto custaria antecipar a passagem voltou ao Brasil tendo concluído aquilo que começou a sonhar ainda criança.

Agora, os planos passam novamente pela graduação. Ana pretende concluir o curso de Direito, buscar experiência profissional e não descarta retornar ao exterior para estudar. Mas carrega uma perspectiva que dificilmente teria adquirido apenas dentro de uma sala de aula.

Para Verônica, há orgulho na formação acadêmica, mas também na independência conquistada pela filha. Para Deise, a história demonstra a importância da coragem para transformar um projeto em realidade. Para Ana, fica uma mensagem principalmente aos jovens que olham para uma experiência internacional como algo inalcançável.

“Eu achava que era impossível e, no fim, consegui”, resume.

E é justamente para quem ainda enxerga esse sonho como distante que Ana deixa o aprendizado mais importante dos seis meses em Portugal: “Para qualquer jovem que sonha em fazer um intercâmbio, fique sabendo que não é tão distante. O mundo está esperando por vocês e tem que ir atrás. Vocês conseguem, têm capacidade.”

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