18 de Agosto, 2026 09h08mEntrevistas por REDAÇÃO INTEGRADA

Da agricultura à gestão pública: Graciela Mohlecke constrói trajetória marcada pelo trabalho e pelo contato com a comunidade

Antes de chegar à chefia de gabinete da Prefeitura de Quinze de Novembro, Graciela Mohlecke conheceu realidades bastante diferentes. Trabalhou na agricultura e na produção de leite

 

Chefe de gabinete do prefeito de Quinze de Novembro relembra a infância no interior, a experiência como agricultora, a atuação comunitária e os dez anos na Câmara de Vereadores antes de assumir um dos principais postos da administração municipal

Antes de chegar à chefia de gabinete da Prefeitura de Quinze de Novembro, Graciela Mohlecke conheceu realidades bastante diferentes. Trabalhou na agricultura e na produção de leite, participou de entidades comunitárias, coordenou grupo de mulheres, passou uma década dentro da Câmara de Vereadores e, somente depois dessa caminhada, recebeu o convite para trabalhar diretamente no Executivo. Ao compartilhar sua trajetória pessoal e profissional, Graciela mostra que boa parte da maneira como hoje encara o serviço público nasceu justamente dessas experiências e do contato construído ao longo dos anos com diferentes pessoas e setores da comunidade.

Natural de Quinze de Novembro, Graciela nasceu na localidade de Linha Jacuí, onde a família possuía terras e vivia da agricultura. Foi ainda criança que conheceu a rotina da lavoura e o trabalho no meio rural. “Eu nasci lá, a gente trabalhou na lavoura. Foi lá que eu conheci a lida já na agricultura desde cedo”, recorda.

A trajetória, entretanto, não ficou restrita ao município onde nasceu. Depois que a família deixou o interior, Graciela viveu parte da infância e da adolescência em Ibirubá, onde estudou e mantém familiares e amigos. Mais tarde, ainda adolescente, teve uma experiência que considera importante para sua formação: foi morar em Florianópolis, em Santa Catarina, com uma tia, ajudando nos cuidados dos primos enquanto os adultos trabalhavam.

Aos 14 anos, precisou aprender rapidamente uma rotina completamente diferente daquela que conhecia. Deslocamentos longos, dois ônibus para chegar a determinados locais, filas e as dificuldades comuns de uma cidade maior passaram a fazer parte de seu cotidiano. Graciela considera que a experiência serviu para despertar uma percepção que carregaria para a vida adulta: o valor da segurança e da proximidade existentes nas pequenas comunidades.

“Lá me fez despertar para a vida, sabe? Para valorizar que a vida do interior, a nossa vida aqui, é muito boa, ela é muito pacata, ela é muito tranquila”, relata.

Depois dessa passagem, retornou à região e acabou construindo sua vida em Quinze de Novembro. Casou-se, teve dois filhos — um casal — e voltou também às origens no meio rural. Durante anos, trabalhou na agricultura, inclusive com produção de leite e lavoura. Hoje, além de mãe, é avó. 

A maternidade veio antes da formação profissional

Graciela teve os filhos ainda jovem. A escolha fez com que alguns projetos pessoais fossem adiados, entre eles a formação acadêmica. Ela não apresenta esse período como um arrependimento, mas como uma etapa da vida em que decidiu estabelecer prioridades.

“Eu tive que parar algumas coisas, eu tive que estacionar, por exemplo, estudar, me formar. Algumas coisas eu tive que parar em função deles”, conta. Hoje, com os dois filhos adultos, encontrou espaço para retomar projetos que haviam ficado para depois.

Atualmente, Graciela é acadêmica de Gestão de Recursos Humanos. A escolha do curso também guarda relação com aquilo que descobriu ao longo da trajetória profissional: gosta de trabalhar diretamente com pessoas.

“Eu gosto muito do que eu faço. Eu me satisfaço muito no meu trabalho. Tanto que eu sou acadêmica do curso de Gestão de Recursos Humanos e acho que eu me encaixo nesse sistema”, afirma.

A família também ocupa um lugar central na forma como Graciela enxerga a própria caminhada. Além da experiência como mãe, ela fala com entusiasmo sobre ser avó e sobre a possibilidade de acompanhar o crescimento do neto. Para ela, a maturidade não chega antes dos filhos, mas vai sendo construída juntamente com eles.

A experiência comunitária antes da política

Muito antes de ocupar cargos ligados ao poder público, Graciela já mantinha envolvimento com a comunidade. Participou de atividades de entidades locais e teve uma passagem pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Quinze de Novembro, onde foi coordenadora de um grupo de mulheres.

A função era voluntária. Nos encontros, as participantes compartilhavam experiências, discutiam diferentes temas, recebiam palestrantes e participavam de atividades regionais. Graciela também teve a oportunidade de participar da Marcha das Margaridas, mobilização nacional voltada às mulheres do campo.

“Eu gostava muito, me dedicava muito. Nesse grupo a gente sentava, trocava vivências, dividia, buscava temas para estudo, chamava palestrantes”, recorda.

Para ela, aquele período reforçou uma característica que mais tarde se tornaria essencial no trabalho público: saber ouvir. A convivência com diferentes pessoas, necessidades e histórias ajudou a formar uma percepção de que nem sempre alguém procura uma instituição apenas por uma solução imediata. Muitas vezes, também precisa ser acolhido e compreendido.

O convite que abriu as portas para a vida pública

Depois dos anos dedicados à agricultura e às atividades comunitárias, surgiu uma oportunidade que mudaria o rumo profissional de Graciela: um convite para trabalhar na Câmara de Vereadores de Quinze de Novembro.

A primeira reação foi de insegurança.

“Eu estava com medo. Pensei: ‘Bah, vou entrar num meio que eu não sei como é e como é que vai ser’”, relembra.

Mesmo com receio, decidiu aceitar.

A experiência que inicialmente causava insegurança se transformou em uma carreira de dez anos no Legislativo municipal. Graciela atuou como supervisora, função que compara à de uma direção da Câmara, e acompanhou diferentes presidentes e vereadores ao longo desse período. Como a presidência do Legislativo muda anualmente, ela precisou aprender a trabalhar com diferentes formas de gestão e lideranças.

“Comecei a trabalhar lá, comecei a aprender, comecei a vivenciar o meio político e gostei. Fiquei dez anos trabalhando na Câmara, passei por vários presidentes, vários vereadores. E nesses dez anos eu aprendi muito”, afirma.

Graciela também destaca os colegas que encontrou durante esse período. Alguns estiveram ao seu lado desde o primeiro até o último ano no Legislativo e, segundo ela, contribuíram diretamente para sua formação profissional.

A passagem pela Câmara foi, portanto, mais do que uma experiência administrativa. Foi ali que ela conheceu por dentro o funcionamento do poder público e percebeu que havia encontrado uma área na qual gostaria de continuar trabalhando.

Da Câmara para a chefia de gabinete

Após dez anos no Legislativo, veio um novo convite. O prefeito Marcos Petri chamou Graciela para assumir a chefia de gabinete. Novamente, ela aceitou o desafio.

“Eu sempre digo que tive muitas oportunidades muito boas. Eu só tive experiências boas que construíram hoje a minha vida onde ela está, como ela está. Foi tudo uma construção, cada degrau, e eu aproveitei todas as oportunidades que as pessoas me ofereceram”, resume.

Na chefia de gabinete, a rotina colocou Graciela ainda mais próxima das demandas da população. O cargo exige interlocução com prefeito, secretários, servidores e moradores que chegam à administração municipal em busca de respostas para problemas das mais diferentes áreas.

Ela admite que trabalhar diariamente com pessoas é desafiador. Há situações em que moradores chegam preocupados, desesperados ou exaltados. Nesses momentos, entende que a primeira tarefa muitas vezes é ouvir para depois identificar qual setor poderá encaminhar a demanda.

“Às vezes chega uma pessoa lá um pouco mais exaltada, por desespero, por preocupação, por vários fatores que a gente às vezes não compreende. Então chegam buscando um serviço e a gente oferta o melhor que tem. Se a gente pode ouvir, pode ouvir”, explica.

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As demandas também possuem diferentes níveis de urgência. Uma situação envolvendo saúde, exemplifica, pode exigir resposta imediata, enquanto determinadas solicitações relacionadas a obras permitem outro prazo. Cabe à equipe identificar essas diferenças, encaminhar cada caso e manter a comunicação entre os setores.

“Tu não faz nada sozinho no público”

Depois de mais de uma década convivendo com a administração pública, Graciela diz ter aprendido uma regra fundamental: nenhuma função funciona isoladamente.

“Tu não faz nada sozinho no público. Tu tem que contar obrigatoriamente com a ajuda dos colegas, com a ajuda das pessoas, várias cabeças pensando, trabalhando e se ajudando. Aí dá certo”, afirma.

Essa lógica também é utilizada como forma de garantir que uma demanda não fique concentrada em apenas uma pessoa. Quando não domina determinado assunto, Graciela procura o servidor ou secretário responsável e discute o encaminhamento.

“Eu não domino todos os assuntos, muito pelo contrário. Eu domino poucos assuntos perto dos meus colegas. Quando chega alguma demanda, alguma situação, eu devo perguntar. Tem que ter a grandeza de chegar para o colega e dizer: ‘Como é que nós vamos conduzir? Como é que nós vamos fazer?’”, relata.

Para ela, essa integração é ainda mais necessária porque uma mesma família pode precisar de diferentes políticas públicas ao longo do tempo. Saúde, educação, assistência, obras e outros serviços municipais acabam se cruzando, exigindo que os setores conheçam as situações e mantenham diálogo.

Graciela atribui parte da satisfação que encontra no cargo justamente à equipe com a qual trabalha. Ela destaca a convivência com secretários, servidores, o prefeito Marcos Petri e a primeira-dama Juliane Petri, ressaltando o ambiente de cooperação que, segundo ela, permite enfrentar as demandas cotidianas.

As raízes ajudam a compreender quem procura o poder público

A experiência de ter trabalhado na agricultura também permanece presente na profissional que hoje está dentro da Prefeitura. Graciela conhece a rotina de quem vive da lavoura porque já esteve nela. Conhece as entidades comunitárias porque participou delas. E conhece o Legislativo porque passou dez anos dentro da Câmara.

“Eu aprendi muito tanto na lida braçal, na lida do leite, na lida da horta, na capina, no trato dos animais, quanto aprendi muito com as pessoas que passaram na minha vida”, afirma.

Para Graciela, a sucessão dessas experiências ajuda a explicar a maneira como procura atender quem chega ao gabinete. Ela também ressalta que, apesar da experiência acumulada, continua aprendendo com pessoas de diferentes áreas e reconhece a necessidade de pedir ajuda quando não possui conhecimento suficiente sobre determinado assunto.

A trajetória reforçou ainda sua ligação com Quinze de Novembro. Depois de conhecer a realidade de uma cidade maior, Graciela passou a valorizar características que muitas vezes parecem comuns para quem sempre viveu em municípios pequenos: conhecer os vizinhos, ter proximidade com professores, motoristas do transporte escolar e profissionais dos serviços públicos e encontrar a comunidade reunida em festas e atividades locais.

Essa percepção também traz uma preocupação com o futuro: criar oportunidades para que os jovens possam estudar, trabalhar e permanecer nos pequenos municípios, evitando que precisem sair definitivamente em busca de espaço profissional.

Uma possibilidade política que não está descartada

Depois de dez anos na Câmara e da atual experiência na chefia de gabinete, a participação de Graciela na política eleitoral também surgiu como tema. Até hoje, ela nunca disputou uma eleição, embora revele que já teve oportunidades para isso.

Questionada sobre a possibilidade de um dia colocar o próprio nome à disposição como candidata, não fechou a porta.

“Eu nunca concorri até hoje, mas não está descartado”, respondeu.

Graciela afirma que anteriormente preferiu respeitar outras pessoas que integravam o grupo político e não avançou em uma candidatura. Para o futuro, porém, admite que a possibilidade existe. “O meu meio é esse e quem sabe”, disse.

Se uma eventual candidatura ainda pertence ao futuro, a construção profissional já possui um caminho bastante definido. Da menina que conheceu cedo a lida da agricultura à adolescente que precisou aprender a se virar em Florianópolis; da jovem mãe que adiou os estudos à trabalhadora rural; da atuação comunitária aos dez anos no Legislativo; e, finalmente, à chefia de gabinete, Graciela enxerga cada etapa como parte da mesma construção.

“Foi tudo uma construção, cada degrau”, define.

Hoje, enquanto concilia a função pública com a graduação em Gestão de Recursos Humanos e a vida familiar, Graciela Mohlecke diz continuar acreditando nas pessoas e na capacidade de construir soluções coletivamente. É uma convicção que ela resume ao falar sobre aquilo que espera para si e para quem cruza seu caminho: “Eu ainda acredito nas pessoas. Eu acredito no que é legal. Eu acredito no que é certo. [...] Eu sou uma sonhadora que espera que tudo no final vai dar certo.

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