18 de Agosto, 2026 09h08mEntrevista por JORNALISTA CRISTIANO LOPES

Sibele Trentini e Sabrina Prass: quando ensinar música também transforma vidas

Para Sibele Trentini, a música praticamente se confunde com a própria história de vida. Para Sabrina Prass, ela começou como uma descoberta ainda na infância e, aos poucos, transformou-se em escolha profissional.

 Sabrina Prass e Sibele Trentini quando ensinar música também transforma vidas
Sabrina Prass e Sibele Trentini quando ensinar música também transforma vidas

Sibele Trentini e Sabrina Prass construíram em gerações diferentes uma relação profissional com a música e hoje compartilham o ensino como instrumento de formação, expressão e descoberta de talentos

 

 As duas trajetórias se encontraram primeiro na relação entre professora e aluna e, anos depois, evoluíram para uma sociedade. Hoje, Sibele e Sabrina dividem a condução de uma escola de música em Ibirubá e uma convicção que aparece em diferentes momentos de suas histórias: talento pode ajudar, mas formação, método, dedicação e prazer em aprender são fundamentais para construir um músico.

Sibele está em Ibirubá há quase 30 anos, mas sua trajetória profissional começou antes da mudança para o município. Ela já trabalhava como professora em cidades como Carazinho, Chapada e Nova Boa Vista e chegou a manter mais de uma centena de alunos naquela região. Ao estabelecer residência em Ibirubá, inicialmente não retomou imediatamente a atividade. Foi somente depois de cerca de dois anos que começaram a surgir os primeiros alunos particulares. A procura aumentou e aquela atividade inicial acabou dando origem à escola que mantém há aproximadamente 15 anos.

A relação de Sibele com a música, porém, começou muito antes da vida profissional. Aos cinco anos, ela já estudava e participou de uma formação que passou por cursos técnicos, conservatório de piano e, posteriormente, faculdade de Música. “A minha vida foi toda em volta da música, do ensino, principalmente do ensino musical”, conta. Mais do que a atuação artística, foi a metodologia de ensino que se tornou uma das principais áreas de interesse da professora.

Ao abrir a escola em Ibirubá, Sibele trouxe uma metodologia que define como bastante influenciada por escolas norte-americanas. Com o crescimento do número de alunos, também foi necessário ampliar a equipe. E foi justamente entre aqueles estudantes que começou a ser construída a segunda parte dessa história.

Sabrina Prass chegou à escola ainda menina. Tinha cerca de 10 anos quando começou a estudar com Sibele. Diferentemente de histórias de músicos que cresceram cercados por instrumentistas ou cantores, ela não encontrou essa referência dentro de casa. “Não tenho ninguém da minha família que seja músico. Não tive nenhuma inspiração, digamos assim. E eu não nasci com aquele dom, como muitas pessoas nascem já sabendo cantar”, relata.

O que existiu desde cedo foi incentivo. Moradora de Quinze de Novembro durante a infância e adolescência, Sabrina começou a fazer aulas de violão por volta dos sete ou oito anos. A identificação foi imediata. “Comecei muito nova e me apaixonei pela música. Me apaixonei mesmo. Eu só não tinha ainda entendido que queria ir para a parte do ensino, mas sabia que queria fazer música quando era criança.”

A vocação para ensinar apareceu posteriormente. Quando Sabrina demonstrou interesse em dar aulas, a formação conduzida por Sibele mudou de direção. A professora passou a prepará-la não somente para tocar, mas para compreender como ensinar outra pessoa. Antes de assumir turmas próprias, Sabrina acompanhou aulas, auxiliou a professora e passou por um período de preparação.

“Foi um bom tempo apenas auxiliando, aprendendo bem como funciona, até eu realmente assumir os meus alunos e as minhas turmas”, recorda. Atualmente, aos 20 anos, Sabrina cursa Licenciatura em Música e está na reta final da graduação. A antiga aluna tornou-se professora e, posteriormente, sócia daquela que participou diretamente de sua formação.

Para Sibele, a história da própria sócia ajuda a demonstrar um princípio que acompanha seu trabalho: a ideia de que não é necessário nascer com uma habilidade musical excepcional para alcançar alto nível. O ensino precisa saber encontrar caminhos para desenvolver cada aluno. “A pessoa não precisa nascer. Nós temos a diferença da metodologia usada, da formação dos professores, o quanto é importante saber como acessar o aluno”, afirma.

Essa visão também ajuda a explicar a variedade de perfis atendidos pela escola. Atualmente são oferecidas aulas de piano, teclado, violão, técnica vocal, violino, bateria, percussão e acordeon, além da musicalização infantil. Sibele, que ao longo da carreira estudou e tocou diferentes instrumentos, decidiu concentrar sua própria especialização principalmente no piano e na voz. “Todo musicista precisa estudar a vida inteira. O estudo é contínuo. Assim como qualquer área, para crescer você vai ter que se atualizar”, observa.

Sabrina também encontrou sua especialidade. Embora tenha estudado técnica vocal e cante, sua formação profissional está mais direcionada aos instrumentos e ao ensino. “Eu canto bastante, mas não me profissionalizei para dar aula. Fiquei mais nos instrumentos, que é o meu foco”, explica.

A formação oferecida pelas duas não segue uma única direção. Há alunos interessados em uma trajetória mais formal, com leitura musical, repertório erudito e estudo próximo ao modelo de conservatório. Outros querem aprender um instrumento como passatempo e tocar repertório popular. Para Sibele, os dois caminhos são legítimos.

“Nós temos alunos que vão querer aquele ensino mais formal do piano, com músicas clássicas, com repertório erudito. Assim como vai ter o aluno que quer vir como um hobby para tocar suas músicas populares”, explica. A proposta é adaptar o ensino ao objetivo de quem procura a música, sem transformar necessariamente todo estudante em futuro profissional.

É na infância que essa filosofia ganha um cuidado ainda maior. A escola trabalha com musicalização infantil a partir dos dois anos. Nessa faixa etária, porém, não se trata de colocar uma criança pequena diante de uma rotina rígida de estudos. As aulas têm cerca de 45 minutos e utilizam brincadeiras, rodas e instrumentos próprios para musicalização, permitindo também experiências com piano e bateria.

“Na cabeça deles, eles estão brincando. Dentro disso a gente começa a ver as habilidades”, explica Sibele. Conforme a criança cresce, começam a aparecer preferências por determinados instrumentos. E nem sempre a vontade dos pais coincide com a do filho. Nesses casos, a orientação é respeitar a identificação da criança. “Às vezes o pai quer muito um instrumento e o aluno quer outro. Eu digo: não insiste, tem que ser o que ele quiser.”

Sibele também faz uma distinção entre incentivar e sobrecarregar. Para ela, crianças pequenas podem ter contato com a música desde cedo, mas a experiência precisa ser prazerosa. A própria professora passou por um modelo muito mais rígido quando criança. Aos 10 ou 11 anos, chegou a querer abandonar o piano, mas a mãe insistiu para que concluísse o curso. Com o tempo, aquela formação acabou determinando toda a sua vida profissional.

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A experiência fez com que adotasse outra postura como educadora. “Quando a criança é bem pequenininha, não dá para obrigar a ir. Tem que ser prazeroso.” Mais tarde, quando existe uma aptidão evidente, os pais podem incentivar maior continuidade. Mesmo assim, profissionalização não precisa ser o objetivo. “Tem aquele que vai só para ter um hobby na vida. E que riqueza que é isso, quando você tem algo que faz muito bem e que é um prazer.”

Técnica também é cuidado com a voz

A experiência profissional de Sibele inclui ainda a formação de cantores e o trabalho com técnica vocal. Para ela, cantar profissionalmente não depende apenas de alcançar determinadas notas. A preparação correta é decisiva para preservar a voz durante uma carreira.

Ela própria aprendeu isso ainda jovem. Aos 15 anos, quando já cantava profissionalmente, enfrentou um período de aproximadamente seis meses com problemas na voz. A orientação de uma antiga professora a levou a procurar formação específica em técnica vocal e canto lírico fora de sua cidade. Segundo Sibele, aquela decisão mudou sua relação com o canto.

Hoje, aquecimento, exercícios e hidratação fazem parte de sua rotina. O cuidado é recomendado não apenas para cantores, mas para qualquer profissional que utilize intensamente a voz. “As pessoas que trabalham com a voz deveriam fazer exercícios porque usam o tempo inteiro. Tem a questão do consumo de água, dos exercícios vocais”, explica.

Esse aprendizado também é transmitido aos alunos que pretendem seguir carreira. Entre os artistas preparados por Sibele está Kauan Felipe, da região, citado pela professora como exemplo da importância de manter os exercícios mesmo depois da formação. “Eu sempre falei para ele: se você não aquecer, depois que se formar, se não tiver esse cuidado, vai ter problemas.”

O palco como extensão da sala de aula

É dentro dessa proposta pedagógica que também surgem os espetáculos promovidos pela escola. Em agosto, alunos e professores participaram de uma produção inspirada em Mamma Mia! e no repertório do ABBA. O evento foi planejado durante aproximadamente um ano, com música, teatro e execução instrumental ao vivo. O repertório passou por diferentes versões até chegar à seleção definitiva, construída também a partir das sugestões dos estudantes.

Mais do que o espetáculo em si, a experiência mostrou um resultado do trabalho de formação. Sabrina destaca que, a cada ano, as professoras procuram diminuir a própria participação musical nas apresentações para abrir espaço aos alunos.

“Quanto menos a gente participar, melhor, porque significa que os nossos alunos estão conseguindo fazer aquilo que a gente teria que fazer”, afirma. Na última produção, Sabrina conseguiu deixar partes que anteriormente executaria no piano para seus estudantes, enquanto Sibele também abriu espaço para que alunos assumissem vocais.

Um exemplo citado por Sibele foi o desafio entregue a uma aluna de 12 anos para reproduzir sozinha, de ouvido, uma das músicas do ABBA. Inicialmente insegura, a menina recebeu da professora a orientação de que já possuía conhecimento suficiente para encontrar as notas e construir a execução. Conseguiu cumprir a tarefa.

Para Sibele, episódios assim mostram quando o ensino começa a produzir autonomia. “A gente tem muito essa questão de levar o aluno a ter essa liberdade e se profissionalizar a ponto de ouvir e tocar. Não ficar preso a uma folha”, explica.

A história profissional de Sibele Trentini e Sabrina Prass acaba, assim, atravessando duas gerações. Uma começou a estudar música aos cinco anos, transformou a formação em profissão, construiu uma escola e passou a formar outros músicos. A outra chegou como criança para aprender, descobriu no caminho a paixão pelo ensino e hoje divide com a antiga professora a responsabilidade de ensinar.

Entre quem pretende seguir carreira e quem simplesmente deseja tocar uma música por prazer, as duas defendem uma mesma ideia: a música não precisa ser privilégio de quem nasceu com um suposto “dom”. Pode ser descoberta, ensinada e construída — desde que encontre conhecimento, dedicação e, sobretudo, espaço para continuar sendo prazer.

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