Rádio Cidade Ibirubá
Cotribá tem 90% do patrimônio comprometido e projeta prejuízo de R$ 164 milhões
Após aprovação unânime da liquidação, Sérgio Strentzke assume o comando do processo, anuncia mudanças na fiscalização e promete aprofundar investigações sobre gestões anteriores. Plano de pagamento aos credores ainda será elaborado.

A dimensão da crise financeira da Cotribá ganhou contornos mais precisos nesta quarta-feira (21), durante a primeira entrevista coletiva após a assembleia que aprovou a dissolução voluntária da cooperativa, com continuidade das atividades. Com patrimônio estimado em R$ 800 milhões, dos quais aproximadamente 90% estão comprometidos por garantias bancárias e medidas judiciais, a instituição enfrenta uma projeção de prejuízo de R$ 164 milhões em 2026. Os números foram apresentados pela assessoria jurídica, que também informou faturamento de R$ 313 milhões no período considerado.
A projeção de prejuízo de R$ 164 milhões corresponde ao exercício de 2026, período em que a Cotribá também esteve sob a responsabilidade da atual administração, agora representada pelo liquidante Sérgio Strentzke. Embora parte das dificuldades financeiras possa decorrer de compromissos e decisões acumulados em anos anteriores, a coletiva não apresentou uma discriminação dos resultados que permita identificar quanto das perdas projetadas está relacionado a cada período de gestão. A ausência desse detalhamento ganha relevância diante das críticas dirigidas por Sérgio aos antigos administradores, uma vez que a avaliação das responsabilidades pela crise exige distinguir o passivo herdado dos resultados produzidos ao longo deste ano.
A coletiva ocorreu no auditório Carlito Fleck, na sede da Cotribá, em Ibirubá, com a participação agora liquidante, Sérgio Strentzke e dos conselheiros fiscais Paulo Prediger, Márcio Ribamar Garmatz e Ingo Ahlert. O encontro esclareceu os primeiros encaminhamentos da nova administração e expôs os obstáculos que deverão ser enfrentados para manter a cooperativa em funcionamento.
Segundo Sérgio, a proposta de liquidação extrajudicial continuada recebeu aprovação unânime dos associados presentes na Assembleia Geral Extraordinária de terça-feira (20). A direção informou que 375 pessoas ingressaram no encontro, embora o quórum tenha diminuído ao longo das deliberações. A ata oficial será publicada com os registros das votações.
Patrimônio elevado, mas com pouca disponibilidade
A situação dos bens da Cotribá foi um dos pontos mais relevantes da coletiva. Conforme explicou a assessoria jurídica, a maior parte do patrimônio está vinculada a garantias concedidas a instituições financeiras e fundos de investimento, incluindo alienações fiduciárias, hipotecas e penhoras judiciais.
“Temos um patrimônio considerável, com uma avaliação aproximada de R$ 800 milhões. No entanto, 90% dele está comprometido”, afirmou o representante jurídico.
A condição limita a possibilidade de transformar imediatamente esses ativos em recursos para pagamento das dívidas. A prioridade será negociar com os credores para reduzir perdas e preservar, quando possível, bens necessários à continuidade das operações.
O cenário também preocupa pelos efeitos sobre os associados. Segundo a assessoria, a cooperativa pretende reduzir o prejuízo projetado até 31 de dezembro, uma vez que as perdas apuradas poderão repercutir nas obrigações dos cooperados, conforme as regras aplicáveis.
Sem prazo definido para pagar credores
Apesar da aprovação da liquidação, ainda não existe um cronograma de pagamentos. Sérgio afirmou que a administração precisará primeiro avaliar a capacidade de geração de receitas, reorganizar o fluxo financeiro e negociar com instituições credoras.
“Nós só podemos pagar aquilo que a gente consegue movimentar”, declarou.
O liquidante reconheceu que não pode estabelecer, neste momento, uma previsão para a devolução de valores a produtores e demais credores. Também evitou garantir a manutenção integral dos empregos, admitindo que a adequação das despesas à capacidade de faturamento poderá exigir mudanças na estrutura operacional.
A situação imediata permanece delicada. Segundo a direção, a cooperativa ainda enfrenta bloqueios judiciais em suas contas e aguarda os procedimentos de registro e publicação da liquidação para buscar a proteção jurídica prevista na legislação.
Fiscalização e transparência
Sérgio afirmou que não pretende exercer a função de liquidante de maneira isolada.
“Não me deram um cheque em branco para eu fazer o que eu quiser”, declarou, ao defender uma administração compartilhada com a equipe técnica e acompanhada pelos três conselheiros fiscais eleitos.
Paulo Prediger deverá participar diariamente das atividades de fiscalização, enquanto Márcio Ribamar Garmat e Ingo Ahlert acompanharão as decisões e os procedimentos administrativos. A direção também pretende manter um canal informal de comunicação com aproximadamente 80 integrantes do antigo conselho consultivo.
Entre os compromissos anunciados estão a contratação de uma auditoria externa independente, a realização de assembleias semestrais de prestação de contas e a criação de um portal público para divulgação dos atos da liquidação.
Críticas às antigas administrações
A coletiva também trouxe declarações contundentes de Sérgio sobre as decisões que antecederam a crise.
O liquidante afirmou que, em 2020, uma consultoria denominada Markestrat recomendou mudanças na gestão da Cotribá, mas suas orientações teriam sido desconsideradas pelos dirigentes da época.
“Essa sugestão de mudança de gestão foi literalmente rasgada pela antiga gestão”, declarou.
Sérgio atribuiu responsabilidades às administrações anteriores e anunciou que as investigações sobre possíveis irregularidades serão intensificadas. Segundo ele, o objetivo é reunir provas e encaminhar eventuais indícios aos órgãos públicos competentes.
As declarações representam a avaliação do atual liquidante. O conteúdo integral do relatório da consultoria e os resultados das investigações não foram apresentados à imprensa durante a coletiva.
Recuperação será um processo de longo prazo
Entre as primeiras prioridades anunciadas estão a retomada das negociações com parceiros comerciais, a intensificação da cobrança de valores devidos à cooperativa e a busca de alternativas para colocar a fábrica de rações em funcionamento.
A direção também confirmou a aproximação com profissionais envolvidos no processo de liquidação da Languiru, em Teutônia, cuja experiência servirá de referência para a elaboração de um plano próprio.
O objetivo declarado é recuperar a estabilidade financeira e, futuramente, submeter aos associados a possibilidade de encerrar o regime de liquidação, sem extinguir a cooperativa. Entretanto, a assessoria jurídica reconheceu que não existe garantia de que esse resultado será alcançado.
A decisão dos associados permitiu à Cotribá iniciar uma nova etapa administrativa, mas não resolveu seu desequilíbrio financeiro.






