
Nas edições anteriores, o Jornal O Alto Jacuí iniciou uma série especial para reconstruir os acontecimentos que antecederam a maior crise da história da Cotribá.
Nesta reportagem, o ato 4, o Jornal O Alto Jacuí trás as informações, sobre uma auditoria que revela operações que vão muito além do desequilíbrio financeiro e podem redefinir os rumos da Cotribá. Enquanto busca recuperar a estabilidade econômica da cooperativa, a atual direção também tenta reconstruir o caminho percorrido até a crise. Contratos sob suspeita, operações patrimoniais, negociações milionárias frustradas e disputas judiciais passaram a compor o trabalho de uma auditoria que ainda está em andamento e promete lançar luz sobre um dos momentos mais delicados da história da instituição.
Série especial | Ato 4
O submundo da crise
O que começou como uma recuperação financeira hoje revela um conjunto de operações que a atual gestão tenta reconstruir por meio de uma auditoria investigativa. Algumas já chegaram ao Judiciário. Outras ainda aguardam respostas.
Quando a nova direção da Cotribá assumiu a cooperativa, em março deste ano, o primeiro desafio parecia evidente: encontrar uma saída para uma crise financeira que já comprometia a continuidade das operações.
Pouco a pouco, porém, a dificuldade deixou de ser apenas econômica.
A cada entrevista concedida nas últimas semanas, o presidente Carlos Waldemar Wilke Diehl passou a relatar episódios que, segundo ele, extrapolam a simples má gestão e hoje são alvo de uma auditoria investigativa conduzida por uma empresa especializada de São Paulo.
O trabalho ainda está em andamento e não apresenta conclusões definitivas. Mas as informações já divulgadas revelam um cenário muito diferente daquele conhecido pelos associados até poucos meses atrás.
A cooperativa que hoje tenta reorganizar suas finanças também procura entender como recursos desapareceram, contratos fracassaram, produtores passaram a ser cobrados por dívidas que afirmam ter quitado e investimentos milionários nunca chegaram a produzir os resultados esperados.
Mais do que investigar números, a auditoria tenta reconstruir uma história.
A promessa bilionária
Talvez nenhum episódio simbolize tanto esse novo momento quanto a negociação que prometia um aporte de R$ 1,04 bilhão para recuperar a cooperativa.
A proposta foi apresentada à época como um divisor de águas para a Cotribá. A expectativa era de que o investimento reorganizasse a estrutura financeira da instituição.
Segundo a atual gestão, entretanto, o dinheiro nunca chegou.
Em entrevistas concedidas à imprensa, Carlos Diehl afirmou que aproximadamente R$ 7,8 milhões foram desembolsados durante a negociação e que os recursos desapareceram sem que o aporte fosse concretizado.
O caso integra a auditoria investigativa e deverá ser encaminhado ao Judiciário.
A soja que virou um mistério
Outro episódio envolve aproximadamente 750 mil sacas de soja.
Conforme relatado pelo presidente da cooperativa, uma trading recebeu os grãos, mas não realizou o pagamento correspondente.
Hoje, a investigação busca identificar o destino dos recursos e reconstruir toda a operação.
O caso já está judicializado.
Produtores pagaram. Mesmo assim foram cobrados.
Entre os fatos de maior impacto para os associados está a operação de antecipação de recebíveis realizada pela gestão anterior.
Segundo a atual direção, produtores entregaram seus grãos e quitaram normalmente seus compromissos com a cooperativa.
O dinheiro, porém, não teria sido utilizado para liquidar os títulos negociados junto aos fundos de investimento.
Meses depois, agricultores passaram a receber cobranças e tiveram seus nomes incluídos em cadastros de inadimplentes.
A Cotribá reconhece a dívida perante os fundos e sustenta que os produtores não autorizaram essas operações, motivo pelo qual considera indevida a cobrança direta aos associados. Parte deles já busca reparação na Justiça.
O patrimônio sob revisão
A auditoria também passou a revisar operações envolvendo imóveis e áreas pertencentes à cooperativa.
Segundo Carlos Diehl, foram identificadas terras utilizadas por terceiros sem contratos formais de arrendamento e negociações patrimoniais realizadas por valores considerados incompatíveis com o mercado.
A atual administração afirma que estuda medidas judiciais para tentar reverter parte dessas operações.
Uma usina que nunca funcionou
Outro caso citado pela nova direção envolve o sistema de energia solar instalado junto à fábrica de rações.
O investimento ultrapassou R$ 3 milhões.
Apesar disso, segundo o presidente, a estrutura nunca gerou energia.
Durante a revisão técnica, a cooperativa afirma ter constatado que equipamentos indispensáveis não haviam sido instalados e que cerca de 30% das placas previstas no projeto sequer estavam no local.
A situação também passou a integrar as investigações internas.
A investigação continua
Nas entrevistas concedidas até agora, Carlos Diehl também mencionou movimentações financeiras em espécie, operações patrimoniais, contratos comerciais e outros fatos que ainda estão sendo analisados.
Segundo ele, nenhuma medida será adotada sem documentação técnica, validação em ata notarial e elementos suficientes para eventual responsabilização judicial.
Enquanto esse trabalho prossegue, uma conclusão já começa a se desenhar.
A dívida bilionária que hoje ameaça uma das mais antigas cooperativas agropecuárias do país parece ser apenas a parte visível de uma crise muito mais complexa.
Por trás dos balanços financeiros existe um conjunto de decisões, operações e episódios que agora começam a emergir.
E compreender esse caminho talvez seja tão importante quanto encontrar uma solução para o futuro da cooperativa.





















