
Pneumologista com quase cinco décadas de atuação explica os efeitos do cigarro, as consequências deixadas pela Covid-19 e os fatores que agravam doenças respiratórias.
Uma especialidade escolhida ainda na juventude e reforçada por uma experiência familiar transformou a pneumologia no centro da trajetória profissional da Dra. Mirian Peukert Rebelato. Ao longo de quase 48 anos de medicina, ela acompanhou mudanças profundas no perfil das doenças respiratórias e hoje chama atenção para um cenário que reúne antigos problemas, como o tabagismo, e novos desafios, entre eles as sequelas da Covid-19 e a maior incidência de crises alérgicas em determinados períodos do ano.
A aproximação com a pneumologia começou pela influência de professores durante a formação médica, mas ganhou uma dimensão pessoal quando Mirian diagnosticou câncer de pulmão no próprio avô. A doença já estava avançada, realidade que ainda acompanha muitos pacientes.
“Foi uma coisa muito chocante, porque era o meu avô, uma pessoa muito querida para mim. Eu me senti impotente naquela situação e pensei: ‘Quero fazer alguma coisa mais, quero estudar mais’. O câncer de pulmão é muito difícil porque, muitas vezes, o diagnóstico acontece em uma fase avançada e as possibilidades de tratamento acabam sendo menores”, relata.
Entre os principais fatores de risco está o tabagismo. A pneumologista lembra que gerações cresceram em uma sociedade na qual fumar era tratado como algo natural e até sofisticado. O impacto dessa exposição, entretanto, pode levar décadas para aparecer.
“O cigarro demora de 20 a 30 anos para colocar a pessoa nessa faixa de risco do câncer de pulmão. Antigamente fumar era um hábito social, uma coisa considerada bonita.”, explica.
A pandemia acrescentou outro capítulo à história das doenças respiratórias. Mirian recorda que os primeiros meses foram marcados pela incerteza, pois os próprios profissionais precisavam aprender diariamente sobre o comportamento do vírus e suas complicações. Anos depois, parte dos pacientes ainda convive com consequências.
“Tenho pacientes que acompanho até hoje, pessoas que passaram muito mal, ficaram vários dias em CTI e chegaram a ter 80% do pulmão comprometido. Algumas não conseguiram recuperar a capacidade respiratória que tinham antes. Também encontramos fadiga, alterações de memória, paladar e olfato. Não acontece com todo mundo, porque cada organismo reage de uma maneira, mas as sequelas existem”, esclarece.
No período de mudanças acentuadas de temperatura, a atenção deve ser ampliada. Além da circulação de vírus respiratórios, Mirian observa na região o avanço de manifestações alérgicas associado à floração das culturas de inverno.
“Já temos canola florescendo e outras culturas de inverno, e isso muda o perfil dos pacientes. Começam a aparecer mais casos de rinite e crises de asma. Para quem já possui tratamento prescrito, é importante utilizar corretamente a medicação e não somente quando aparece a crise”, orienta.
A prevenção, segundo a pneumologista, passa por hábitos cotidianos e imunização. “Sou uma grande defensora das vacinas. A vacina da gripe é fundamental e existe também a pneumocócica para situações indicadas. Alimentação adequada, qualidade do sono, exercício e proteção diante das mudanças bruscas de temperatura também ajudam. Cuidar da saúde respiratória não começa quando a doença aparece; é um cuidado permanente”, destaca.
Outro cuidado ressaltado por Mirian envolve os ambientes fechados, especialmente nos períodos de maior circulação de doenças respiratórias. “É muito importante evitar lugares com grande aglomeração e fechados, porque isso propicia muito a troca de vírus. As gripes e a Covid ainda circulam. Algumas pessoas, quando estão com sintomas respiratórios, deveriam usar máscara”, explica. Para a médica, a pandemia deixou ao menos uma mudança positiva: pacientes passaram a demonstrar maior consciência sobre a necessidade de reduzir a transmissão quando apresentam sintomas gripais.
A pneumologista também chama atenção para um comportamento frequente entre pessoas com asma: abandonar ou utilizar de maneira irregular a medicação prescrita. “Tem muita gente que recebe a indicação das bombinhas e ainda tem preconceito, porque acha que vai viciar ou fazer mal para o coração. Alguns usam somente quando precisam, mas determinadas medicações são de tratamento e necessitam de uso contínuo para alcançar o melhor efeito”, esclarece. A regularidade, conforme Mirian, é especialmente importante nas épocas de instabilidade climática e maior exposição a fatores capazes de desencadear crises.





















