30 de Janeiro, 2026 08h01mPolítica por JORNALISTA CRISTIANO LOPES

Câmara de Ibirubá aprova vale-alimentação para prefeito e secretários sob forte debate ético

A aproximação de discursos entre situação e oposição neste tema reforça a dimensão política do episódio

Câmara de Ibirubá aprova vale-alimentação para prefeito e secretários sob forte debate ético
 

A matéria, embora trate da recomposição inflacionária de 13,9% e do ganho real no auxílio-alimentação para todo o funcionalismo, gerou  controvérsia ao estender o benefício — fixado agora em R$ 850,00 — ao prefeito, vice-prefeito e secretários municipais. O texto original prevaleceu após a rejeição de uma emenda supressiva que buscava restringir o reajuste apenas aos servidores de carreira, em uma votação apertada que terminou em 5 votos a 4.
A resistência ao projeto foi encabeçada pela bancada do Progressistas, que argumentou que, apesar da legalidade técnica apontada pelos pareceres, a concessão do benefício a agentes políticos é inoportuna. Os vereadores André Oliveira Ferreira (Canja), Letícia Rockenbach Brönstrup, Gesmari Jandrey e Giovani Diesel destacaram que o município enfrenta dificuldades econômicas acentuadas, especialmente nos setores agrícola e leiteiro. Canja relembrou posicionamentos passados do atual prefeito em exercício, Silvestre Antônio Rebelato (MDB), que em legislaturas anteriores havia defendido cortes vencimentos, apontando o que classificou como uma "incoerência administrativa".
A vereadora Letícia Brönstrup contrastou a nova despesa com a negativa de repasse do Incentivo Financeiro Adicional (IFA) aos agentes comunitários de saúde, movendo o debate do campo jurídico para o da equidade. Por outro lado, o vereador Diogo Bandarro Nogueira (PL) justificou seu voto favorável a concessão de vale-alimentação alegando que agentes políticos são frequentemente interpelados pela população para auxílios pessoais, como ''conserto de celulares,  gas, alimentos'', sugerindo que o vale-alimentação ajudaria a custear esse tipo de assistência informal.
O presidente da Casa, Cristiano André da Silva, o Pinheiro  (MDB), reforçou o tom crítico ao classificar a medida como "imoral" diante do contexto atual, mesmo sendo legalmente viável. Silva ainda pontuou uma divisão política no Executivo, afirmando que a iniciativa partiu do prefeito em exercício Silvestre Rebelato e não contaria com o apoio da prefeita Jaqueline Winsch. Ao final, o projeto foi aprovado com oito votos favoráveis no texto principal e uma abstenção, após a derrota da emenda da oposição. O desfecho evidenciou o descontentamento com o chamado "voto amarrado", técnica legislativa que uniu o benefício dos servidores ao dos políticos em um só projeto, dificultando uma votação independente para cada categoria.

O Pivô ausente
A ausência do vereador de oposição Ricardo Petry Doninelli (Republicanos) acabou sendo decisiva no equilíbrio de forças. Caso ele estivesse presente e mantivesse o posicionamento contrário à concessão do vale-alimentação aos agentes políticos, o placar poderia ter resultado em empate, transferindo ao presidente da Câmara o voto de desempate. Nesse cenário, conforme o próprio Cristiano Pinheiro deixou claro tanto em plenário quanto na entrevista à nossa reportagem, o voto da presidência seria contrário à extensão do benefício a prefeito, vice-prefeito e secretários

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Depois da sessão, lideranças convergem e ampliam críticas ao vale-alimentação

A repercussão do debate em plenário levou nossa reportagem a ouvir, separadamente, duas das principais lideranças políticas da Câmara de Ibirubá: o presidente do Legislativo, Cristiano André da Silva, o Pinheiro (MDB), e o vereador André Oliveira Ferreira, o Canja (PP). Historicamente em campos opostos — situação e oposição —, ambos surpreenderam ao apresentar diagnósticos muito próximos sobre o impacto político e simbólico da extensão do vale-alimentação aos agentes políticos.
Apesar das diferenças partidárias, as entrevistas revelaram um ponto de inflexão: o entendimento de que a proposta extrapolou o campo administrativo e gerou um desgaste desnecessário ao governo e à própria Câmara.
Cristiano Pinheiro adotou um tom crítico e cuidadoso ao avaliar a iniciativa do Executivo. Segundo ele, o projeto representou um erro estratégico grave. O presidente afirmou que o governo vinha em um momento positivo, com obras em andamento e contas organizadas, mas que a proposta do vale funcionou como uma “bomba” política, capaz de ofuscar avanços administrativos e deslocar o debate público para uma pauta sensível e impopular. Na avaliação de Pinheiro, o desgaste não era inevitável e poderia ter sido evitado com mais sensibilidade política.
O presidente também foi enfático ao afirmar que a executiva do MDB não foi consultada sobre a medida e que a maioria dos correligionários se posiciona contrária à concessão do benefício aos agentes políticos. Ao reforçar que a prefeita Jaqueline Winsch (PL), em período de férias, já havia manifestado que não desejava o vale, Cristiano atribuiu a condução do projeto ao prefeito em exercício, Silvestre Rebelato (MDB). A fala evidenciou uma divisão interna e preservou a imagem da prefeita diante da repercussão negativa.
Um dos trechos mais duros da entrevista de Cristiano foi direcionado ao argumento levantado em plenário de que o vale-alimentação serviria para que políticos continuassem ajudando pessoas carentes. Para o presidente da Câmara, essa justificativa é eticamente inaceitável. “Eu me sinto envergonhado. Não se cria lei para ganhar dinheiro do povo e dizer que vai devolver ao povo. Isso é errado”, afirmou. Pinheiro também garantiu que, como presidente, irá acompanhar de perto a aplicação do benefício, cobrando critérios rigorosos, como desconto em casos de diárias de viagem e ausências, para evitar privilégios e manter isonomia com os servidores.
Já André Ferreira, autor da emenda supressiva, manteve o foco na desconexão entre a classe política e a realidade enfrentada pela população. Canja reforçou o discurso apresentado em plenário, destacando o que chamou de incoerência histórica do prefeito em exercício, que no passado defendeu cortes e austeridade. Para o vereador, a mudança de postura fragiliza o discurso político e aprofunda a desconfiança da população.
O impacto social da medida também foi central na fala de André. Ele voltou a citar a crise no meio rural e a pressão econômica sobre trabalhadores e produtores, classificando o benefício como um símbolo de privilégio. Segundo Canja, conceder um vale de R$ 850 a agentes políticos com salários elevados representa um afastamento da realidade de quem enfrenta instabilidade no preço do leite, endividamento e insegurança econômica.
Outro ponto destacado foi a estratégia do Executivo de reunir, em um único projeto, o reajuste do auxílio-alimentação dos servidores e a extensão do benefício aos agentes políticos. André classificou a medida como um “voto amarrado”, que constrangeu vereadores que apoiam o reajuste aos funcionários, mas rejeitam o privilégio político

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