
Após a circulação de um áudio com conteúdo ofensivo às religiões de matriz africana, comunidades de terreiro de Ibirubá divulgaram uma carta aberta condenando a intolerância religiosa e reafirmando sua fé, dignidade e disposição para o diálogo inter-religioso.
A circulação de um áudio por aplicativos de mensagens, nos últimos dias, causou revolta entre integrantes das comunidades de terreiro de Ibirubá. A gravação, carregada de desinformação e preconceito, associa falsamente práticas sagradas da Umbanda e do Candomblé a intenções de causar mal à cidade, chegando a mencionar entidades espirituais como Exu e orixás como Xangô em um contexto de violência e morte.
Diante da gravidade da situação, quatro casas de Umbanda de Ibirubá divulgaram, no dia 6 de agosto, uma carta aberta à comunidade. O documento, assinado pela Casa Espiritual Xangô e Oxum, o Ilê Ogum Oyá, o Reino de Xangô Aganjú e o Ilê Ogum Avagã e Oxum Gama, traz um posicionamento claro e firme contra a intolerância religiosa.
“A intolerância religiosa não nos calará. Nossa resposta será coletiva, madura e firme. Não para alimentar disputas religiosas, mas para afirmar nossa fé com dignidade”, afirma um dos trechos da carta, que tem circulado amplamente nas redes sociais locais.
Segundo os signatários, o episódio representa um ataque isolado e de viés fundamentalista, que não reflete a convivência respeitosa construída ao longo dos anos entre as diferentes expressões de fé em Ibirubá. “A quem é de amém e a quem é de axé, estendemos a mão do diálogo”, destaca outro trecho do documento, reforçando o desejo de manter pontes de diálogo com todas as religiões presentes na cidade.
A carta também denuncia o impacto das narrativas preconceituosas que, além de desinformar, alimentam o medo e a segregação. “Não aceitaremos mais sermos retratados com desprezo ou ignorância. Nossa religião tem fundamentos, história e papel social. Somos parte viva e legítima da diversidade brasileira”, destacam os representantes dos terreiros.
Além da indignação, a carta se ancora no direito constitucional à liberdade religiosa. O artigo 5º da Constituição Federal garante o livre exercício dos cultos, a proteção aos locais de liturgia e a inviolabilidade da crença individual. Ao associar rituais afro-brasileiros a atos criminosos, o áudio fere diretamente esses princípios e incita a intolerância — uma conduta passível de responsabilização legal.
A manifestação das casas de Umbanda ganhou apoio de fiéis, ativistas dos direitos humanos e lideranças religiosas de outras tradições, que reconheceram a importância de se preservar o respeito mútuo entre diferentes crenças. Nos bastidores, já se articula uma possível roda de diálogo inter-religioso com participação de representantes das igrejas e das casas de matriz africana da cidade.
“Nós seguimos unidos na fé, na justiça e no axé. Mas nunca abaixaremos a cabeça diante da intolerância”, conclui a carta, em tom de resistência e serenidade.
A mobilização das comunidades de terreiro de Ibirubá evidencia não apenas a força de suas tradições, mas também o compromisso em transformar a dor do preconceito em oportunidade de diálogo e afirmação de direitos. Em tempos de discursos polarizados, reafirmar o valor da convivência pacífica entre diferentes crenças é um ato de coragem — e de fé.





















