Do vazio dos palcos ao vazio de uma vida sem Motta

Músico deixa um legado de humildade e amor ao próximo 

Era manhã de sexta-feira, quando Ibirubá chorou. Sabe aquela sensação do fim de um show? Quando o artista termina seu espetáculo e fica só o burburinho, o pedido de “mais uma”? Os ibirubenses viram um show de vida ser cessado tão precocemente. Claudio Augusto da Motta não só realizou shows ao longo de sua vida, mas deu um show de humildade, de simpatia, de dignidade. Ao contrário dos shows que se acabam, o legado de sua história ficará para sempre no coração de cada ibirubense. 

Por complicações relacionadas a Covid-19, Motta, aos 44 anos, partiu deixando uma cidade desolada. Motta estava internado na UTI do Hospital São Vicente de Paulo, era início da manhã de sexta-feira, que prometia ser um dia “normal”, ante a Pandemia em que nos encontramos, mas foi um 26 de março que ficará marcado para sempre. 

Filho de Carlos Helio da Motta e Inêz Zanatta da Motta, marido de Angélica Signor da Motta, pai de Miguel, Augusto e Rosa, amigo, profissional, Motta trilhou sua história ao fazer dupla com o cantor Fernando Bitencourt e era conhecido não só na cidade, mas ao longo do estado, do país e fora dele, como Argentina, Bolívia e Paraguai. Sua falta foi sentida em diversos cantos deste Rio Grande. Como divulgou a Prefeitura Municipal de Ibirubá, ao decretar luto de três dias “Os palcos de Ibirubá e do mundo não irão se acostumar com o silêncio dessa gaita botoneira e com a ausência do riso largo e fácil desse grande artista”. 

Desde os 15 anos de idade Motta respirou música, foi incentivado pela mãe a aprender tocar instrumentos, primeiro o violão, o piano e depois a gaita. Essa que foi sua companheira inseparável até o seu momento de despedida. Durante o ato de sepultamento, que ocorreu no cemitério municipal de Ibirubá na tarde de sexta-feira, Izake Ruschel ‘abriu’ a gaita em despedida ao compadre com a canção Criado em Galpão, de Walter Moraes, “O dia em que eu não puder aguentar mais o repuxo. Talvez o Rio Grande diga lá se foi mais um gaúcho. Mas enquanto eu tiver força, laço domo e tranço ferro. E na invernada do mundo mais um rodeio eu encerro”. Choro, incredulidade e dor marcaram o momento de despedida, que foi transmitido através de uma live aos ibirubenses. 

Em uma entrevista a Rádio Cidade FM e ao Jornal O Alto Jacuí, dias antes da live que arrecadou mais de 54 mil reais em doações, Motta contou da sua trajetória profissional e pessoal, sempre destacando a importância do companheiro de palco Fernando, que esteve ao lado desde o início da carreira em meados de 1994. Para Motta, que também se formou em Fisioterapia e tinha seu consultório desde 2000, o mais digno da profissão e que mostrou que realmente valeu a pena todo o esforço, foi poder dar à família conforto e comodidade. Motta tinha características semelhantes às do cantor Renato Borghetti, era conhecido pelo jeito mais tímido que Fernando no início da carreira, mas ao longo do tempo foi ganhando espaço e mais voz, o ‘tchê’, era parte do seu vocabulário, acompanhado do sorriso largo e carisma. Carregava a humildade da carreira profissional, sabia o nível e o lugar que estava. Optaram por estar nos palcos de casamentos, formaturas, rodeios, eventos empresariais e assim marcando a vida de diversas pessoas, conquistando fãs, amigos, admiradores, apoiadores do seu trabalho e da sua carreira. Entre os marcos que Motta lembrou durante a sua entrevista, está o show que a dupla realizou no aniversário de 80 anos de Leonel Brizola e contou com mais de 35 mil pessoas, na Restinga em Porto Alegre. Além das participações no Galpão Crioulo e show em outros estados, durante a pandemia Fernando e Motta realizaram a live show que rendeu a gravação de diversas músicas, entre elas a de autoria de Fernando ‘A saudade é um bom sinal”. 

Com muita emoção, dor e lágrimas, Fernando que esteve ao lado de Motta desde a infância, que foi o braço direito ao longo da carreira, despediu-se do amigo lembrando do legado de humildade que ele deixou “São quase 30 anos de história, levando alegria e felicidade às pessoas. Sempre com amor e carinho, humildade. Se hoje a gaita está se calando, o exemplo do meu irmão é um legado de bondade, fé e amor pela família, pelos amigos e principalmente de humildade e honestidade. 27 anos que tocamos juntos, nunca tivemos um atrito. Peço a Deus que o receba com todo amor do mundo. Ele continuará vivo em nossos corações. O artista vive eternamente nas suas composições e nos seus aplausos”, disse Fernando. 

Lembrado pelo amor com a família, filhos e irmãos, Motta destacou ainda na entrevista concedida a Rádio Cidade, a importância da saúde e do cuidado “Se pudesse daria a minha saúde e a minha força aos meus irmãos”, disse ele ao contar das história dos dois irmãos que sofrem com a doença degenerativa Atrofia Muscular Espinhal, um deles já falecido e outro que relembrou o carinho de Motta. Na tarde de sábado, um dia após o sepultamento do músico, o irmão Carlos Alexandre fez uma postagem de agradecimento em rede social. Carlos frisou o perigo da covid-19, que para alguns não causa complicações, porém para o músico foi fatal. 

“Caros amigos do Facebook, venho através desta agradecer as diversas mensagens de apoio recebidas via redes sociais pelo falecimento do meu irmão Claudio Augusto da Motta. Quero também agradecer a todos que participaram da carreata em sua homenagem, ver aquelas pessoas em frente às fábricas, lojas, residências e nos veículos, aplaudindo, algumas chorando emocionadas e com bandeiras foi muito bonito, emocionante e reconfortante para a família. Gostaria também de deixar um alerta, a respeito desta doença, meu irmão tinha 44 anos e uma saúde de “ferro” praticamente nunca havia adoecido, mas tombou diante desta doença que não escolhe idade ou tipo físico, costumo dizer que ela é como uma loteria que ninguém quer acertar e a forma de não participar dela é seguindo as orientações dos profissionais da saúde. Um abraço a todos e se cuidem”, escreveu Carlos Alexandre. Motta foi internado no dia 15 de março no Hospital Annes Dias de Ibirubá  e no dia 19 foi transferido para o Hospital São Vicente em Cruz Alta. Nesta sexta-feira (2), completa uma semana de uma das despedidas mais doloridas que o povo ibirubense sentiu. Ao longo dos dias que se sucederam, diversas homenagens foram postadas, lembrando da história e do legado que o músico deixou. Palavras singelas, que carregam a importância que Motta teve na vida de todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo. 

Autor: Rádio Cidade Ibirubá

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